SNS enfrenta bloqueio hospitalar com 3.536 altas adiadas e custo anual de 351 milhões de euros

SNS enfrenta bloqueio hospitalar com 3.536 altas adiadas e custo anual de 351 milhões de euros
Bloqueio hospitalar no SNS

O sistema hospitalar público português mantém mais de 3.500 doentes clinicamente aptos para sair internados por falta de respostas sociais, familiares ou de cuidados continuados. A pressão já ocupa 13,9% das camas dos hospitais públicos e agrava atrasos no acesso a urgências, cirurgias e tratamentos programados.

Destaques

  • O Serviço Nacional de Saúde registou 3.536 situações de alta hospitalar adiada no fim de maio, com custo anual de 351 milhões de euros.
  • Entre março de 2023 e março de 2026, os internamentos inadequados cresceram de 10,5% para 13,9% das camas hospitalares públicas, afetando sobretudo doentes com mais de 65 anos.
  • O Governo criou 400 novas camas intermédias e planeja duplicar para 800 até o fim de 2026, enquanto equipas domiciliares poderão assistir mais 1.835 pessoas por dia.

Escala do bloqueio e evolução recente

Como noticiou o ThePortugalPost, o diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde, Álvaro Almeida, disse na comissão parlamentar de Saúde em 9 de junho que as unidades locais de saúde registam 3.536 situações de alta adiada no fim de maio.

Desse total, 1.339 doentes permanecem internados por não terem apoio familiar ou vaga numa resposta social, 1.358 aguardam entrada na rede nacional de cuidados continuados integrados e 513 estão retidos por processos de acompanhamento judicial de adultos vulneráveis. Entre abril e maio de 2026, o número sobe em 43 casos.

A comparação com estimativas anteriores da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares exige cautela, porque os critérios usados não são os mesmos. Ainda assim, a tendência é de agravamento, com subidas de 11% entre março de 2023 e março de 2024, de 8% no ano seguinte e de 19% entre março de 2025 e março de 2026.

No mesmo período de dois anos, o peso destes internamentos inadequados passa de 10,5% para 13,9% das camas dos hospitais públicos. Lisboa e Vale do Tejo e a região Norte concentram a maior parte dos casos, num fenómeno que afeta sobretudo pessoas idosas, já que 72% dos doentes retidos têm mais de 65 anos.

Impacto assistencial e resposta do Governo

O bloqueio de camas reduz a capacidade disponível para atividade aguda e programada, incluindo episódios de urgência, cirurgia e tratamentos oncológicos. Segundo a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, a ocupação associada a estas situações equivale à capacidade conjunta de várias unidades hospitalares, agravando tempos de espera e pressão operacional, sobretudo nos picos de inverno.

Nas enfermarias de medicina, a demora média destes internamentos atinge 157 dias a nível nacional, chegando a 239 dias no Norte e a 124 dias em Lisboa e Vale do Tejo. O problema é agravado pelo envelhecimento demográfico, pela escassez de lares e camas de cuidados continuados, por habitação inadequada para pessoas dependentes e pela lentidão dos processos judiciais de tutela, que podem prolongar-se por seis meses ou mais.

Desde janeiro de 2026, as autoridades transferem 422 pessoas ao abrigo do regime criado por um diploma de 2023, mais 27% do que no mesmo período de 2025. Um novo diploma cria ainda 400 camas intermédias, das quais 79 já recebem transferências até meados de maio, e o Governo prevê duplicar essa capacidade para 800 até ao fim do ano.

O SNS aposta também na expansão nacional das equipas de cuidados continuados integrados domiciliários entre 1 de abril e 31 de dezembro de 2026. De acordo com as estimativas oficiais, a adesão plena pode permitir acompanhar mais 1.835 pessoas por dia em casa, mas a dimensão atual da procura indica que o alívio será gradual e insuficiente sem reforço estrutural da rede social e de cuidados.

Na nossa publicação anterior sobre os internamentos sociais no SNS, explicámos por que razão doentes já com alta clínica continuam a ocupar camas hospitalares devido à falta de vagas em cuidados continuados, lares e apoios na comunidade. Mostrámos como este bloqueio reduz a capacidade de internamento e agrava listas de espera, ilustrando o impacto prático do problema num hospital específico e a ligação a limitações estruturais da rede social.

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