Dívida ou blockchain: Argentina entre a crise e o futuro das criptomoedas

Dívida ou blockchain: Argentina entre a crise e o futuro das criptomoedas
Argentina entre o colapso e o futuro do blockchain

A Argentina mais uma vez chamou a atenção do mundo. A desvalorização do peso, a inflação, os títulos com rendimentos altíssimos e os escândalos de "shitcoin" - tudo isso cria a impressão de que o país não está caminhando para reformas, mas para outra crise. O presidente Javier Milei prometeu "quebrar o sistema" e abrir o caminho para o futuro, mas até agora os argentinos só veem problemas antigos em novas embalagens.

Este artigo foi traduzido do original. Leia a versão original do nosso correspondente aqui.

Não é de surpreender que as críticas tenham começado a aumentar. O economista e autor do best-seller The Bitcoin Standard, Saifedean Ammous, em uma publicação nas redes sociais, chamou a política de Milei de "pirâmide de dívida e inflação" e alertou que o país está se transformando em um "cassino para especuladores".

Milei e seu curso econômico

Quando Javier Milei chegou ao poder, ele prometeu uma ruptura radical com o passado: fechar o banco central, controlar a inflação e restaurar a confiança dos argentinos no dinheiro. Quase dois anos se passaram e nenhuma mudança drástica ocorreu.

O peso continua a se desvalorizar rapidamente: apenas nos últimos meses, perdeu mais de 10% em relação ao dólar e saiu do "corredor" que o governo estava tentando defender. A oferta de moeda também está crescendo - em junho de 2025, o M2 ultrapassou 80,9 trilhões de pesos, em comparação com 75 trilhões em maio. Em outras palavras, o governo está imprimindo dinheiro mais rápido do que prometeu.

A inflação continua alta. Embora o governo projete que ela diminuirá para 10% em 2026, atualmente os argentinos estão lidando com aumentos de preços que consomem qualquer salário ou poupança. Os títulos estão sendo vendidos a taxas anuais astronômicas de 80-90%, enquanto os bancos são forçados a comprá-los de acordo com as novas exigências regulatórias. Nesse cenário, o escândalo sobre o token LIBRA - uma memecoin que Milei promoveu nas mídias sociais - foi especialmente alto.

Após uma breve recuperação, o token entrou em colapso e os investidores relataram perdas de cerca de US$ 107 milhões. Alguns participantes do mercado conseguiram sacar o dinheiro, mas a maioria acabou perdendo suas economias. O presidente se distanciou, alegando que não tinha envolvimento na estrutura do projeto. No entanto, a Câmara dos Deputados formou uma comissão para investigar, e a LIBRA tornou-se um símbolo de como os experimentos de Milei apenas minam a confiança na política econômica.

A "bicicleta financeira"

Paralelamente, o país gira no que é conhecido como bicicleta financeira. O esquema é simples: o Estado emite títulos com rendimentos tão altos que superam até mesmo a desvalorização do peso. Aqueles que têm dólares entram nesse mercado, compram títulos e, por algum tempo, se sentem vencedores.

Mas essa bicicleta só funciona enquanto o governo continuar imprimindo dinheiro novo e pagando dívidas antigas. E todo mundo sabe: um dia a corrente vai cair. Aqueles que pularem a tempo salvarão seu patrimônio. Os demais cairão com o mercado.

Os grandes jogadores sabem como fazer isso muito bem. Na primavera, o J.P. Morgan aconselhou seus clientes a comprar títulos argentinos e, no verão, a sair. Como resultado, os investidores internos obtiveram retornos anuais de dois dígitos, enquanto os argentinos comuns ficaram com os bolsos vazios e um peso desvalorizado. Para eles, essa bicicleta se transforma em uma roleta russa: se você tiver sorte, viverá melhor por alguns meses; se não, toda a sua família irá para a cama com fome.

El Salvador e Venezuela: Dois exemplos

A América Latina já tem experiência com experimentos de criptografia conduzidos pelo Estado. O primeiro país a ousar um verdadeiro "experimento com Bitcoin" foi El Salvador. Em 2021, o presidente Nayib Bukele tornou o BTC moeda legal. O mundo balançou a cabeça com ceticismo: um país altamente endividado, dolarizado e sem sua própria política monetária agora adicionando o Bitcoin?

Mas os anos se passaram e a catástrofe nunca chegou. Pelo contrário, El Salvador acumulou mais de 6.000 BTC (em setembro de 2025, no valor de cerca de US$ 700 milhões) e até mesmo extrai alguns com usinas geotérmicas. O país se tornou uma espécie de showroom de criptomoedas: turistas e investidores vêm para ver como funciona uma "economia com Bitcoin no bolso".

No entanto, isso não ocorreu sem obstáculos. O FMI imediatamente se opôs: se o país quisesse novos empréstimos, teria que abandonar a ideia do "Bitcoin nacional". O governo se comprometeu - as empresas não precisavam mais aceitar o BTC, apenas opcionalmente. Pesquisas mostram que quase metade dos cidadãos usava Bitcoin algumas vezes por ano, principalmente em supermercados. Na vida cotidiana, ele nunca substituiu o dólar, mas deu a El Salvador a imagem de um pioneiro em inovação.

A Venezuela seguiu um caminho diferente. Em 2018, o regime de Nicolás Maduro lançou o Petro - uma criptomoeda supostamente apoiada por reservas de petróleo. O plano era ambicioso: criar uma "economia digital do petróleo" e salvar o país da hiperinflação. A realidade era muito mais sombria. Quase ninguém usava a Petro, ela não era aceita em bolsas internacionais e a população percebeu rapidamente: o token era apenas mais uma forma de o governo transferir a crise para o povo. Os venezuelanos ainda buscam refúgio em criptomoedas privadas e plataformas P2P, enquanto a Petro continua sendo um símbolo de experimentos fracassados.

Dois exemplos, duas histórias. El Salvador usou as criptomoedas para melhorar sua imagem e atrair dinheiro novo. A Venezuela a utilizou como decoração para as ruínas de sua economia. E agora surge a pergunta: onde, entre esses extremos, a Argentina vai parar? Milei pode repetir a história de Bukele ou corre o risco de se tornar um novo Maduro com seus "projetos de criptografia fantasmas"?

A criptografia como um porto seguro

Enquanto as autoridades fazem experimentos, os próprios argentinos há muito tempo encontraram sua própria saída. Para eles, stablecoins como USDT ou USDC são uma maneira de evitar a desvalorização. O bitcoin é uma reserva de valor em um país onde os depósitos bancários perdem valor mais rapidamente do que acumulam juros. E a Solana recentemente se tornou outra ferramenta popular: graças às transações rápidas e baratas, ela é usada para pagamentos e transferências diárias, e alguns investidores veem a SOL como uma "reserva de valor" alternativa.

A Argentina está constantemente classificada entre os 10 primeiros do mundo em número de detentores de criptomoedas. E, ao contrário dos projetos estatais de El Salvador ou da Venezuela, essa é uma verdadeira "criptoeconomia de baixo para cima". Ela não precisa de slogans políticos - é construída pelos próprios cidadãos, protegendo suas economias.

A Argentina de hoje é um país onde os políticos fazem experimentos financeiros de alto risco, enquanto as pessoas buscam refúgio na criptomoeda. Um mundo gira sobre a bicicleta da dívida, o outro - sobre a cadeia de blocos. E esse contraste mostra que o futuro da economia aqui está sendo decidido não nos escritórios do governo, mas nas carteiras das pessoas comuns.

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