Portugal, Espanha e França aceleram energia renovável para reduzir custos energéticos
Portugal, Espanha e França estão a acelerar investimentos em energias renováveis e redes elétricas para reduzir a exposição das suas economias à volatilidade dos combustíveis fósseis. A corrida decorre em ritmos diferentes, com Portugal a destacar-se na quota renovável, Espanha a concentrar investimento em infraestruturas e França a combinar eletrificação com reforço nuclear.
Destaques
- Portugal, Espanha e França aceleram aumento de capacidade renovável visando até 2030 metas de 85%, 81% e 35% de eletricidade renovável, respectivamente.
- Espanha projeta investimento conjunto público-privado de até 500 mil milhões de euros em renováveis até 2030 e já regista queda de 40% no preço da eletricidade empresarial.
- Investimento, modernização da rede e simplificação de licenças tornam-se principais desafios para converter capital e ambição em nova produção renovável nos três países.
Planos nacionais e metas até 2030
Como relata o ThePortugalPost, os três países estão a reforçar a produção renovável como resposta ao risco de choques nos preços do petróleo e do gás, numa estratégia que também visa maior previsibilidade para famílias e empresas.Portugal produz 74% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis em 2024, percentagem que sobe para 80,7% em janeiro de 2026, colocando o país entre os líderes europeus. A hídrica e a eólica continuam a dominar, enquanto a capacidade solar já ultrapassa 6,1 GW. Para 2026, o Governo aumenta em 4,9% o orçamento do Ministério do Ambiente, Energia e Água, para 2,495 mil milhões de euros, e espera captar 40 mil milhões de euros de investimento privado em renováveis e hidrogénio até 2030, com compromissos totais acima de 60 mil milhões de euros até ao fim da década.
Apesar disso, a execução continua a ser um entrave em Portugal. A Comissão Europeia leva o país a tribunal por falhas na promoção das renováveis em linha com diretivas da UE, enquanto atrasos no licenciamento, fragmentação regulatória e falta de capacidade técnica nas entidades de autorização travam projetos. As metas para 2030 apontam para 85% de eletricidade renovável, havendo fontes que referem 93%, e pelo menos 51% de renováveis no consumo final bruto de energia. A capacidade solar deverá atingir 20,8 GW, a eólica onshore 10,4 GW e a eólica offshore 2 GW.
Espanha está a mobilizar investimento recorde na rede elétrica, com 6,964 mil milhões de euros para a rede nacional de transporte entre 2021 e 2026 e mais 20 mil milhões de euros para redes de distribuição no mesmo período. O país lança ainda um programa de incentivos de 480 milhões de euros para reforçar o fabrico doméstico de equipamentos e componentes renováveis. No conjunto dos setores público e privado, o investimento em renováveis deverá aproximar-se de 500 mil milhões de euros até 2030.
O roteiro espanhol para 2030 prevê 81% de eletricidade renovável e 48% de renováveis no consumo final de energia. A capacidade instalada deverá chegar a 179 GW, incluindo 62 GW de eólica, dos quais 3 GW offshore, 76 GW de solar, incluindo 19 GW em telhados e autoconsumo, e 22,5 GW de armazenamento energético. A atualização legislativa elimina o conceito de geração não despachável e dá às centrais renováveis a mesma autoridade de controlo de tensão que as centrais convencionais, reforçando a estabilidade da rede.
Em França, a meta é triplicar a capacidade renovável em menos de dez anos e atingir 35% de eletricidade renovável até 2030, embora Bruxelas defenda pelo menos 44%. O Governo francês quer redirecionar até 10 mil milhões de euros por ano de subsídios aos combustíveis fósseis para a eletrificação dos transportes, da indústria e dos edifícios. A partir do fim de 2026, novas construções deixam de poder instalar sistemas de aquecimento a gás.
A capacidade renovável francesa deverá atingir pelo menos 91 GW em 2030, com 48 GW de solar e capacidade combinada de solar e eólica entre 105 GW e 135 GW em 2035. O país prevê leiloar 2,9 GW de solar por ano a partir de 2026, mas mantém uma estratégia distinta da ibérica, já que a energia nuclear fornece 68,1% da eletricidade francesa em 2025. O novo plano para 2026-2035 inclui seis novos reatores, com opção para mais oito, além da otimização da frota nuclear existente.
Impacto económico e pressão sobre execução
A aposta renovável já produz efeitos económicos desiguais. Em Espanha, os preços da eletricidade para empresas caem 40% com o aumento da oferta eólica e solar, enquanto o Fundo Monetário Internacional projeta crescimento do PIB de 2,1% em 2026, em parte ligado ao desempenho do setor energético. Ainda assim, mais de metade da capacidade solar prevista terá de entrar em operação nos seis anos a partir de 2024, o que coloca pressão adicional sobre rede e licenciamento.Em França, o redirecionamento anual de 10 mil milhões de euros pretende reduzir a fatia dos combustíveis fósseis no consumo de 60% em 2023 para 40% em 2030. No entanto, a aceleração do plano alimenta o debate sobre os custos de transição, já que as faturas de eletricidade para famílias e indústria estão a subir durante a fase de construção, embora o Governo sustente que redes mais eficientes e renováveis mais baratas acabarão por estabilizar ou reduzir os preços.
Para Portugal, a elevada quota renovável melhora a proteção contra choques globais de combustíveis fósseis, mas os ganhos plenos dependem de modernização da rede e de menos entraves administrativos. O país também enfrenta impacto territorial, com novos projetos solares e eólicos a alterar zonas rurais, interiores e áreas costeiras previstas para eólica offshore, ao mesmo tempo que aumenta a procura por trabalhadores especializados, serviços de engenharia e capacidade industrial.
No plano europeu, a Diretiva de Energias Renováveis revista fixa uma meta vinculativa de pelo menos 42,5% de renováveis até 2030. Em 2025, a produção eólica e solar já supera os combustíveis fósseis na geração elétrica da UE pela primeira vez, e a comunicação AccelerateEU, emitida em abril de 2026, procura acelerar a implantação de energia limpa e reforçar a resiliência energética do bloco. Para Portugal, Espanha e França, o desafio central deixa de ser a ambição financeira e passa a ser a capacidade de transformar metas e capital disponível em licenças, rede e nova produção.
Na nossa publicação anterior, explicámos o processo da Comissão Europeia no Tribunal de Justiça da União Europeia contra Portugal por atrasos na transposição da Diretiva 2023/2413 (RED III), crucial para simplificar licenças e acelerar projetos de energias renováveis. Também abordámos o risco de sanções financeiras e o impacto desses atrasos nas contas de eletricidade, bem como o parecer fundamentado relativo às regras do mercado elétrico destinadas a tornar os preços mais previsíveis e a proteger os consumidores.
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