USDT volta para casa: por que a Tether está retornando às origens

USDT volta para casa: por que a Tether está retornando às origens
Por que o USDT precisa do Bitcoin?

​O USDT está voltando à blockchain onde sua história começou. Mais de uma década depois de a Tether lançar sua stablecoin pela primeira vez no Bitcoin, uma nova versão deve chegar à rede neste mês. Mas isso não é simplesmente um renascimento da tecnologia deixada para trás pela Tether.

Este artigo foi traduzido do original. Leia a versão original do nosso correspondente aqui.

Por que o USDT está voltando agora

A empresa de infraestrutura apoiada pela Tether, Utexo, planeja lançar o USDT no Bitcoin em outubro, após obter uma licença comercial para emitir a stablecoin. A implementação usará o RGB, um protocolo desenvolvido para emitir e transferir ativos digitais usando o Bitcoin sem colocar todos os dados das transações diretamente em sua blockchain pública.

O CEO da Tether, Paolo Ardoino, descreveu a iniciativa como o USDT “voltando para casa”. Há um contexto histórico por trás da frase: a Tether lançou o USDT pela primeira vez no Bitcoin em 2014, muito antes de a stablecoin se tornar um ativo de aproximadamente US$ 184 bilhões distribuído por várias blockchains.

A nova infraestrutura foi projetada para permitir transferências privadas de USDT, swaps diretos entre Bitcoin e USDT e empréstimos garantidos por Bitcoin nativo. A Utexo também planeja estender o suporte à Lightning Network após o lançamento inicial.

Por que o USDT deixou o Bitcoin?

O USDT foi lançado originalmente em 2014 na Omni Layer, um protocolo construído sobre o Bitcoin que permitia aos usuários emitir e transferir ativos digitais. Na época, o Bitcoin era o ponto de partida óbvio. O Ethereum ainda levaria meses para ser lançado, enquanto o amplo ecossistema de stablecoins de hoje não existia.

Mas o sucesso do USDT acabou se tornando parte do problema da Omni. À medida que a Tether se expandiu para outras blockchains, usuários e exchanges escolheram cada vez mais alternativas mais adequadas a transferências frequentes de tokens. O Ethereum tornou-se uma importante rede para o USDT, enquanto a Tron, onde a Tether lançou uma versão TRC-20 em 2019, acabou se tornando ainda maior.

Em 2023, a Tether afirmou que a Omni havia sofrido com a queda no uso, à medida que as exchanges favoreciam outras redes. Manter uma versão pouco utilizada ainda exigia recursos de segurança, compliance, suporte ao cliente e tecnologia, e a Tether parou de emitir USDT na Omni naquele agosto. Mais tarde, encerrou o suporte ao resgate da versão legada.

O que mudou desta vez?

A resposta é o RGB. Em vez de registrar todos os detalhes de cada transferência de tokens diretamente na blockchain do Bitcoin, o RGB mantém grande parte dessas informações entre as pessoas que realizam a transação. A propriedade é vinculada aos UTXOs do Bitcoin, essencialmente frações de Bitcoin que ainda não foram gastas.

Para o USDT, isso poderia resolver alguns dos problemas que tornaram a antiga versão no Bitcoin menos atrativa. As transferências podem ser mais privadas e exigir menos dados armazenados no próprio Bitcoin, enquanto os usuários poderão, eventualmente, manter e movimentar Bitcoin e USDT sem enviar seus BTC para outra blockchain.

O modelo também abre caminho para swaps diretos entre BTC e USDT e para empréstimos garantidos por Bitcoin, sem primeiro transformar o Bitcoin em um token como o WBTC. A integração com a Lightning poderia, eventualmente, tornar o USDT mais prático para pagamentos menores e mais rápidos.

Há uma complicação. No Ethereum e na Tron, a Tether pode congelar endereços individuais quando necessário. O RGB funciona de forma diferente, pois os ativos são vinculados a UTXOs, e não a saldos convencionais de contas. A Utexo afirma que UTXOs ligados a atividades sancionadas ou ilícitas podem, em vez disso, ser colocados em uma blacklist, impedindo que o USDT afetado seja resgatado ou transferido por sua infraestrutura.

A Tron ainda é a verdadeira casa do USDT

O Bitcoin voltará a um cenário do USDT muito diferente daquele de 2014. Dos aproximadamente US$ 184 bilhões em USDT atualmente em circulação, cerca de US$ 92,7 bilhões estão na Tron, o que representa pouco mais da metade da oferta total. O Ethereum detém outros US$ 73,4 bilhões, ou cerca de 40%.

A posição da Tron é especialmente impressionante. O USDT representa quase 98% da oferta de stablecoins na rede, e a Tron recentemente ultrapassou US$ 30 trilhões em volume acumulado de transações. Sua popularidade entre os usuários de USDT foi construída em torno de uma proposta simples: movimentar dólares digitais é um dos principais usos da rede.

O Ethereum continua sendo a segunda maior rede do USDT, apoiado por seu enorme ecossistema de exchanges, protocolos de lending, aplicativos descentralizados e outros serviços financeiros. A BNB Chain e a Solana também têm quantidades relevantes de USDT, mas nenhuma chega perto das duas líderes.

O Bitcoin pode alcançar esse nível?

A pergunta mais interessante talvez seja se precisa. A nova versão no Bitcoin não precisa substituir a Tron ou o Ethereum para ser relevante. A infraestrutura da Utexo pode captar liquidez de USDT das redes existentes e, ao mesmo tempo, oferecer uma alternativa para usuários que desejam especificamente realizar transações com Bitcoin nativo.

Seu sucesso dependerá menos do nome da Tether e mais de exchanges, carteiras, provedores de pagamentos e, posteriormente, serviços da Lightning realmente integrarem a solução. A Tron se tornou a maior rede do USDT porque as pessoas a utilizavam, não simplesmente porque a Tether disponibilizou o token nela.

O Bitcoin agora tem outra chance. Desta vez, o USDT está voltando não como um experimento à procura de sua primeira blockchain, mas como uma grande stablecoin tentando descobrir se sua casa original pode finalmente se tornar uma opção prática.

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