Agricultura portuguesa reforça aposta em eficiência e diferenciação para ganhar competitividade
A agricultura portuguesa enfrenta uma fase de maior exigência, em que produzir deixa de ser suficiente para assegurar competitividade num contexto de custos elevados, pressão internacional e maior exigência do mercado. O setor procura responder com mais eficiência, integração da cadeia de valor, inovação e foco em qualidade, origem e sustentabilidade.
Destaques
- A competitividade da agricultura portuguesa depende cada vez mais da eficiência, diferenciação e capacidade de criar valor ao longo da cadeia, com custos de energia, fertilizantes e água pressionando a produção.
- O setor adota modelos como integração vertical, produção regenerativa e partilha de risco, mas os apoios públicos permanecem inferiores aos de mercados concorrentes como Espanha e 53% da mão de obra é imigrante.
- Digitalização, inteligência artificial e medidas públicas para reduzir custos e reforçar infraestruturas são fatores críticos para transformar a competitividade, pois o mercado valoriza autenticidade e sustentabilidade, mas mantém elevada sensibilidade ao preço.
Custos estruturais e reorganização da cadeia
Como destaca o Jornal de Negócios, produtores e distribuidores identificam uma mudança estrutural no setor, em que a competitividade depende cada vez menos do volume e mais da capacidade de criar valor ao longo da cadeia. Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal, afirma que a agricultura nacional está mais competitiva graças ao investimento em inovação e novas tecnologias, mas continua condicionada por custos de contexto, dificuldades no acesso à mão de obra e atrasos na aplicação de fundos comunitários.Segundo o responsável da CAP, energia, fertilizantes e água continuam a pressionar os custos de produção, enquanto os apoios públicos em mercados concorrentes, como Espanha, são em muitos casos superiores aos disponíveis em Portugal. A dependência de mão de obra imigrante, que representa 53% dos trabalhadores agrícolas, acrescenta vulnerabilidade a uma atividade que também precisa de investimento público em infraestruturas hídricas.
Do lado da distribuição, Ondina Afonso, presidente do Clube de Produtores Continente e diretora de Qualidade e Investigação na MC, defende que a competitividade deve ser analisada ao longo de toda a cadeia. A responsável sustenta que o aumento sustentado da produtividade, a integração de processos de transformação e a redução de desperdícios permitem melhorar a eficiência e criar mais valor, numa lógica de partilha de investimento, conhecimento e risco entre os vários intervenientes.
Esse modelo também é seguido por operadores como a PROSA, especializada em quivi, que combina produção, conservação e comercialização para reduzir a dependência de intermediários e garantir maior homogeneidade do produto. A empresa considera que o controlo da cadeia desde o campo até ao cliente ajuda a aproveitar melhores oportunidades de valorização, embora a pressão dos custos crescentes e da concorrência internacional se mantenha.
Inovação, sustentabilidade e impacto na competitividade
Num mercado global em que Portugal dificilmente concorre apenas em preço, a diferenciação por qualidade, autenticidade e valor acrescentado ganha peso estratégico. Em setores como tomate de indústria, azeite ou cortiça, o país consegue competir em volume, mas de forma geral o posicionamento assenta na capacidade de o mercado reconhecer atributos distintivos da agricultura mediterrânica portuguesa.A sustentabilidade passa a integrar essa equação económica. O Clube de Produtores Continente diz que a agricultura regenerativa já tem escala em várias fileiras de frutos e legumes, enquanto a PROSA está a aplicar modelos de produção regenerativa e sem resíduos nas suas explorações e de forma gradual entre produtores parceiros. Ainda assim, os custos iniciais mais elevados continuam em larga medida do lado do produtor, e o mercado nem sempre os absorve integralmente.
O comportamento do consumidor mantém-se dividido entre valorização da origem e das práticas sustentáveis e sensibilidade ao preço. O texto refere que o Estudo Nacional de Avaliação da Literacia Alimentar em Adultos, promovido pela Associação Portuguesa de Nutrição com apoio do Continente, aponta que o principal obstáculo não é a falta de informação, mas a dificuldade em traduzi-la em comportamentos concretos, com um score médio de literacia alimentar de 57,5% entre adultos portugueses.
A digitalização, a inteligência artificial e as ferramentas de apoio à decisão surgem como fatores críticos para os próximos anos, a par de medidas públicas que reduzam custos de contexto e reforcem infraestruturas e promoção internacional. Neste enquadramento, a competitividade do setor passa a depender da capacidade de transformar dados em ação, adaptar operações e alinhar produção, transformação e acesso ao mercado.
Na nossa publicação anterior sobre o plano do Governo para reduzir substancialmente a dependência de combustíveis fósseis, explicámos as prioridades em renováveis, eletrificação e armazenamento, com foco nos transportes e na indústria. O texto destacou que aumentar a autonomia energética é visto como uma forma de proteger a economia da volatilidade dos preços e dos riscos de abastecimento, reforçando a competitividade. Também referimos o peso crescente das renováveis no sistema elétrico e como isso pode amortecer choques externos nos custos de energia.
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