Brasil e U.S. enfrentam entraves em cooperação contra o crime transnacional
A tensão diplomática entre Brasil e U.S. está a afetar uma parceria de longa data no combate ao crime organizado e na troca de agentes de segurança entre os dois países. O impasse envolve vistos retidos, visitas técnicas recusadas e um ambiente político mais sensível num momento em que o narcotráfico e a lavagem de dinheiro ganham peso na agenda regional.
Destaques
- O Departamento de Estado reteve vistos de dois agentes da Polícia Federal brasileira designados para Miami e Nova Iorque, levando o Brasil a bloquear o visto de um agente norte-americano, paralisando o intercâmbio policial.
- A recusa dos U.S. em receber agentes alfandegários e fiscais brasileiros até novembro fragiliza a cooperação bilateral contra lavagem de dinheiro e contrabando de armas, áreas consideradas estratégicas por especialistas.
- Os U.S. designaram em maio as duas maiores facções do narcotráfico brasileiro como organizações terroristas, medida que resultou no vazamento operacional de investigações sigilosas no Brasil após sanções aplicadas.
Vistos retidos travam intercâmbio policial
Conforme relatado pelo InfoMoney Mercados, o Departamento de Estado reteve os vistos de dois agentes da Polícia Federal brasileira designados para postos em Miami e Nova Iorque, onde trabalhariam com a Divisão de Investigações de Segurança Interna dos U.S. e outras agências federais no combate ao crime transnacional. Em resposta, o Brasil também bloqueia o visto de um agente norte-americano que deveria ser destacado para o país, enquanto as autoridades dos dois lados continuam a negociar.O governo norte-americano também recusou um pedido de visita de agentes alfandegários e fiscais brasileiros a Washington, alegando agenda cheia até novembro. A missão fazia parte de uma iniciativa para ampliar a cooperação contra lavagem de dinheiro e contrabando de armas, áreas em que especialistas consideram a coordenação bilateral cada vez mais relevante.
Os dois agentes brasileiros sem visto deveriam assumir os cargos no mês passado, depois de já terem sido selecionados e avaliados por autoridades dos dois países no início deste ano. Um deles substituiria Marcelo Ivo de Carvalho, expulso dos U.S. em abril e acusado pelo governo Trump de perseguição política devido ao seu papel na prisão de um ex-chefe da inteligência brasileira ligado a uma conspiração golpista.
Depois dessa expulsão, o Brasil revogou as credenciais de um agente norte-americano em Brasília. Numa nova medida recíproca, Brasília retém o visto do sucessor desse agente até que os seus próprios adidos policiais possam assumir os postos nos U.S..
Desgaste político amplia risco para segurança regional
As rupturas surgem após um ano de relações tensas, marcado por tentativas do presidente Donald Trump de interferir em assuntos internos do Brasil e por uma aparente disposição de apoiar Flávio Bolsonaro na disputa eleitoral de outubro contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para analistas, essa sobreposição entre segurança e política interna aumenta a desconfiança e dificulta planos mais ambiciosos de cooperação.Embora a cooperação técnica entre polícias e serviços de inteligência continue, o enfraquecimento da coordenação de alto nível pode limitar ações conjuntas contra redes que operam para além das fronteiras. O Brasil é uma rota importante de trânsito de cocaína para a Europa, África e outros destinos, e facções brasileiras aprofundam alianças com grupos mexicanos e colombianos, ao mesmo tempo que usam o sistema financeiro norte-americano para lavar recursos ilícitos e recorrem ao mercado norte-americano como fonte de armas ilegais.
Lula defende em reuniões e telefonemas com Trump uma cooperação mais estreita contra o crime organizado, incluindo uma proposta apresentada na Casa Branca em maio para atacar armas e finanças dos cartéis. Segundo um funcionário brasileiro citado no texto original, o governo Trump não responde à proposta.
No mesmo mês, os U.S. designam as duas maiores facções do narcotráfico brasileiro como organizações terroristas, medida cujo impacto ainda não está claro. A decisão já provoca pelo menos um problema operacional, ao expor alvos de uma investigação sigilosa da polícia brasileira após a aplicação de sanções norte-americanas.
Washington também procura reforçar laços com líderes conservadores da região por meio do Escudo das Américas, aliança de segurança contra o narcotráfico que não inclui o Brasil. No mês passado, o país também fica fora de uma reunião de autoridades de segurança da América Latina e do Caribe liderada pelos U.S. nas Nações Unidas.
Para especialistas e ex-diplomatas, o uso de vistos como instrumento de pressão pode aprofundar o afastamento entre os dois maiores países do hemisfério. Jimmy Story, ex-embaixador dos U.S. e sócio fundador da Global Frontier Advisors, afirma que o interesse deveria ser aproximar o Brasil, e não afastá-lo.
Na nossa publicação anterior sobre a pesquisa Datafolha da disputa presidencial, destacamos a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva nas intenções de voto e a redução da diferença para Flávio Bolsonaro, indicando uma corrida cada vez mais apertada. O levantamento também mostrou que, nos votos válidos, a vantagem de Lula diminui e reforça o cenário de polarização, com impacto potencial no ambiente político e nas relações institucionais em ano eleitoral.
Últimas notícias Sanctions
- Forex
- Crypto