Brasil mantém rali eleitoral, mas dívida elevada amplia risco para crédito e contas públicas

Brasil mantém rali eleitoral, mas dívida elevada amplia risco para crédito e contas públicas
Risco fiscal cresce no Brasil

A reação positiva dos mercados ao avanço de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial está a aliviar temporariamente a pressão sobre os activos brasileiros, num momento em que investidores apostam numa queda acentuada dos juros. Esse movimento, porém, decorre paralelamente a um agravamento da inadimplência entre famílias, empresas e produtores rurais, com implicações para o crescimento e para a trajectória fiscal do país.

Destaques

  • Ativos brasileiros continuam valorizando após o primeiro turno, mas dívida pública supera 80% do PIB e inadimplência segue em níveis recorde.
  • Propostas eleitorais de Lula e Bolsonaro focam em perdão de dívidas e fundos de resgate, mas ambos evitam cortes de despesas diretas e mantêm incerteza fiscal.
  • Em agosto, 9,3 milhões de empresas estavam inadimplentes com 244 bilhões de reais em dívidas vencidas, enquanto a inadimplência financeira chega a 5%.

Endividamento disseminado testa alívio do mercado

Conforme noticiou o InfoMoney Mercados, a melhoria de humor nos activos brasileiros após o primeiro turno está a desviar a atenção de um problema mais estrutural, o avanço da dívida em vários segmentos da economia. A valorização dos activos reflecte a expectativa de que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro abra espaço para uma queda mais forte das taxas de juro, levando inclusive empresas altamente alavancadas, como a Cosan, a reavaliar planos de venda de activos.

Apesar desse alívio, o quadro de crédito permanece pressionado. A dívida pública supera 80% do PIB, enquanto a inadimplência das famílias e o número de empresas com pagamentos em atraso atingem níveis recorde. No campo, os produtores rurais entram em incumprimento num ritmo também recorde, pressionados pela combinação de custos financeiros elevados, margens menores nos grãos e efeitos climáticos.

Rafael Nogueira, sócio da Chimera Capital, afirma que o próximo ano deve ser dedicado a reorganizar a economia e que, mesmo com uma queda rápida dos juros, as consequências do actual ciclo de endividamento devem prolongar-se por pelo menos mais dois anos. Na mesma linha, Camila Abdelmalack, economista-chefe da Serasa Experian, diz que o país entra em 2027 com um legado significativo de dívida entre famílias e empresas, o que exigirá resposta cuidadosa e estratégica.

Planos eleitorais mantêm dúvidas sobre ajuste fiscal

A disputa apertada para o segundo turno de 25 de outubro aumenta a volatilidade dos activos locais e leva investidores a procurar protecção. Segundo o texto, o custo para se proteger contra o risco de uma vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobe tanto que o estratega de taxas do Macquarie Group, Thierry Wizman, passa a recomendar a posição oposta, avaliando que o prémio pago compensa em grande parte eventuais perdas num cenário de reeleição.

Lula propõe o perdão de 12,6 mil milhões de reais, cerca de U.S. 2,5 mil milhões, em dívidas de microempreendedores e apresenta um projecto de lei para transporte público gratuito aos fins de semana em todo o país. Bolsonaro, por sua vez, critica o programa de renegociação de dívida do adversário e defende um fundo de resgate para famílias e empresas endividadas, com recursos de leilões de petróleo e venda de activos, tendo a Caixa Económica Federal como compradora e refinanciadora desses créditos a taxas mais baixas.

Ambos, no entanto, evitam sinalizar cortes directos de despesa, embora prometam estabilizar a dívida pública sem sacrificar programas sociais. As propostas incluem medidas que podem sustentar a procura e ampliar o gasto, dificultando tanto a redução da dívida como uma flexibilização monetária mais rápida. Victor Tofolo, chefe de crédito da Bradesco Asset Management, afirma que um ajuste fiscal tem custos no curto prazo, mas abre espaço para juros mais baixos.

Os dados recentes reforçam a dimensão do problema. Em agosto, 9,3 milhões de empresas estavam inadimplentes, com 244 mil milhões de reais em dívidas vencidas, segundo a Serasa Experian. Ao mesmo tempo, o consumo das famílias cai 0,4% no segundo trimestre, e os indicadores de julho e agosto apontam para desaceleração adicional, enquanto a inadimplência no sistema financeiro atinge 5% em agosto, impulsionada sobretudo pelo atraso de pessoas físicas.

Na nossa matéria anterior sobre o minidólar WDOX26, destacámos que o contrato abriu o dia sob volatilidade, influenciado pelo fortalecimento global do dólar, pelos dados de inflação dos EUA e pela cautela com as pesquisas eleitorais no Brasil. Também apontámos que a direção do movimento dependia do rompimento de resistências e da manutenção de suportes, com a região dos 5.000 pontos a servir como referência central para o mercado.

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