Operação Marquês expõe centralização de decisões no GES, diz ex-contabilista em tribunal
O julgamento da Operação Marquês volta a centrar-se no funcionamento interno do Grupo Espírito Santo, com testemunhos sobre a estrutura e os mecanismos de decisão do conglomerado. Um antigo contabilista do grupo afirma em tribunal que Ricardo Salgado decidia todas as matérias, relevantes ou não, num universo de centenas de empresas.
Destaques
- Ex-contabilista Lourenço Lobo afirmou em tribunal que Ricardo Salgado centralizava decisões no GES, apesar de uma estrutura com 300 empresas.
- Lobo revelou que foi convidado em 2013 para assumir simultaneamente cargos em 17 empresas, insinuando tratar-se de entidades offshore.
- Testemunho aponta que a ES Resources pagava salários a trabalhadores de outras sociedades do grupo e internalizava custos por confidencialidade.
Depoimento detalha cadeia de comando no grupo
Lourenço Lobo, antigo contabilista do Grupo Espírito Santo e ex-diretor da Rioforte, afirmou em tribunal, segundo o CM Jornal, que as decisões no grupo eram concentradas em Ricardo Salgado, apesar da existência de uma vasta rede empresarial.Interrogado como testemunha no julgamento da Operação Marquês, Lobo explica que trabalhava sob a tutela de José Castella, antigo controlador financeiro do GES, mas que muitas matérias tinham de ser submetidas ao então líder do grupo. No depoimento, refere que Castella dizia com frequência que tinha de perguntar ao patrão, quer os assuntos fossem relevantes ou não.
A testemunha descreve ainda uma estrutura societária altamente complexa, com um organigrama que reunia 300 empresas e era atualizado trimestralmente. Em meados de 2013, acrescenta, foi convidado por José Castella para assumir de uma só vez funções de administrador em 17 empresas, convite que diz ter recusado depois de ser alertado por um colega, deixando implícito que se trataria de entidades offshore.
Pagamentos cruzados e impacto judicial do testemunho
No mesmo depoimento, Lobo admite que havia trabalhadores do grupo com salários processados por empresas para as quais não prestavam efetivamente serviço. Segundo explica, a ES Resources pagava remunerações de pessoas que trabalhavam noutras sociedades do GES, sendo depois esses custos transferidos e faturados internamente como prestação de serviços, numa prática que associa a razões de confidencialidade.O testemunho reforça uma das dimensões financeiras e operacionais em análise no processo, ao apontar para circuitos internos de custos e funções distribuídas por várias entidades do grupo. Ricardo Salgado é um dos 21 arguidos da Operação Marquês e responde por oito crimes de branqueamento de capitais e três de corrupção ativa, enquanto José Sócrates, antigo primeiro-ministro, é o principal arguido e está a ser julgado por 22 crimes, incluindo três de corrupção.
No nosso artigo anterior sobre o Manifesto dos 50+, analisámos a pressão do movimento para impor prazos obrigatórios a procuradores e juízes e acelerar megaprocessos que se arrastam durante anos sem desfecho. O texto destacou também as críticas às recentes alterações aos Códigos Penal e de Processo Penal e a responsabilização do Ministério Público pela morosidade, num debate que ganha relevo sempre que avançam julgamentos mediáticos como o da Operação Marquês.
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