Ministério da Administração Interna ordena auditoria ao SIRESP em meio a disputa sobre pagamento de 26 milhões de euros
O Ministério da Administração Interna avança com uma auditoria alargada à sua Secretaria-Geral e à rede de emergência SIRESP, num momento de forte tensão interna sobre contratos e gestão financeira. O pedido à Inspeção-Geral das Finanças surge depois da demissão do ex-secretário-geral Ricardo Carrilho, que associa a sua saída à recusa de autorizar um pagamento de 26 milhões de euros.
Destaques
- O ministro da Administração Interna, Luís Neves, ordenou à Inspeção-Geral das Finanças uma auditoria abrangente ao SIRESP e à Secretaria-Geral na semana de 15 de outubro de 2026.
- A demissão de Ricardo Carrilho, por recusar validar um pagamento de 26 milhões de euros à SIRESP S.A., levou a alegações de ilegalidade e pressão política ilegítima.
- O Parlamento português abriu audições urgentes e uma comissão de inquérito, aumentando a pressão política sobre a gestão, contratos e financiamento do SIRESP entre 2024 e 2026.
Auditoria alarga pressão sobre contratos e gestão
Como noticiou o ThePortugalPost, o ministro da Administração Interna, Luís Neves, pede uma auditoria abrangente a toda a contratação e atividade da Secretaria-Geral do ministério e do SIRESP, com o pedido enviado à Inspeção-Geral das Finanças na semana de 15 de outubro de 2026. Segundo o ministro, o objetivo é submeter esta área a uma avaliação por uma entidade de reconhecido mérito quanto à legalidade e à formalidade dos procedimentos.A decisão é tomada após o afastamento, em 13 de outubro, de Ricardo Carrilho, então secretário-geral do Ministério da Administração Interna. Neves justifica a demissão com quebra de confiança e com aquilo que descreve como uma atitude de confronto permanente por parte do antigo responsável.
Carrilho contesta essa versão e afirma que foi alvo de pressão política ilegítima e de interferência asfixiante por ter recusado validar uma transferência de 26 milhões de euros para a SIRESP S.A. O ex-dirigente diz que considerou o pagamento ilegal e sem fundamentação suficiente, acrescentando que não quis assumir responsabilidades civis, criminais ou financeiras perante o Tribunal de Contas por eventuais irregularidades.
O antigo responsável descreve ainda a SIRESP S.A. como um encargo pesado para os cofres públicos, apontando salários elevados na administração, custos de depreciação sem explicação, despesas com consultores de comunicação, assessoria técnica e jurídica, rendas de escritórios e aluguer de viaturas de gama alta. Em julho, propôs a dissolução da empresa.
Pressão política aumenta no Parlamento
O caso ganha dimensão parlamentar, com o PS a pedir uma audição urgente de Luís Neves e de Ricardo Carrilho para esclarecer a demissão e os diferendos sobre a gestão e o financiamento do SIRESP. A Iniciativa Liberal avançou também com uma resolução que recomenda uma auditoria extraordinária aos anos de 2024, 2025 e 2026, centrada na gestão financeira, nas obrigações de serviço público e na supervisão da empresa.O partido liberal levanta ainda dúvidas sobre um potencial conflito de interesses, ao notar que o presidente da SIRESP S.A. acumula funções com a presidência do Conselho de Utilizadores. Já o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, remete o tema para a Assembleia da República, sublinhando que, no sistema constitucional português, cabe ao Parlamento a fiscalização política do Governo.
Em paralelo, arranca em 15 de outubro uma comissão parlamentar de inquérito separada sobre o período em que Luís Neves lidera a Polícia Judiciária, entre 2018 e 2026. A comissão, presidida por André Ventura, do Chega, vai analisar procedimentos relativos a bens apreendidos no processo Pacoba, o desaparecimento de uma carteira de criptoativos e o alegado desaparecimento de cerca de 200 armas de uma sala restrita do Laboratório de Polícia Científica.
Embora a controvérsia do SIRESP não seja o objeto formal desse inquérito, o novo processo amplia a pressão política sobre o ministro numa altura em que a gestão do sistema de comunicações de emergência volta ao centro do debate institucional.
Na nossa publicação anterior, analisámos o balanço de dois anos do mandato de Amadeu Guerra à frente da Procuradoria-Geral da República, marcado por investigações de grande visibilidade e por decisões de acusação e arquivamento em dossiês de corrupção económica, atuação policial e terrorismo. O artigo destacou casos como Monte Branco, EDP/CMEC e a Operação Influencer, ilustrando o reforço do escrutínio sobre a legalidade e a responsabilidade na gestão de recursos e decisões públicas.
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