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A Ledger, fabricante francesa de carteiras de hardware, está em alta. A empresa não apenas espera encerrar o ano com uma receita recorde, mas também começou a se preparar para uma IPO. No entanto, por trás desse rápido crescimento há uma história mais complexa - uma história de riscos, controvérsias e a luta pela confiança do usuário.
Este artigo foi traduzido do original. Leia a versão original do nosso correspondente aqui.
O ano de 2025 já se tornou o mais bem-sucedido da história da Ledger. As vendas de carteiras de hardware atingiram níveis recordes, e a receita ultrapassou centenas de milhões de dólares pela primeira vez. Essa conquista fortaleceu a posição da empresa como líder no mercado de armazenamento a frio e a levou a considerar seu próximo passo: a abertura de capital.
Agora a Ledger está se preparando para uma listagem em Nova York, onde, de acordo com sua gerência, a maioria dos fundos de investimento e capital de criptografia está concentrada atualmente. A empresa está avaliando tanto uma rodada de financiamento privado quanto um IPO completo, com o objetivo de levantar capital para uma maior expansão e uma presença mais forte nos EUA. Para a startup francesa, isso pode representar um marco importante - uma transição de uma marca de tecnologia para uma empresa pública global. Mas o que explica esse sucesso extraordinário?
O crescimento explosivo da Ledger em 2025 está intimamente ligado ao estado da segurança digital. O setor de criptografia está passando por um de seus períodos mais turbulentos: apenas no primeiro semestre do ano, os hackers roubaram mais de US$ 2,2 bilhões em ativos digitais - superando todo o ano de 2024. De acordo com a Chainalysis, cerca de um quarto desses ataques teve como alvo carteiras individuais - usuários comuns.
Diante desse cenário, a demanda por dispositivos de armazenamento de hardware aumentou. Tanto os investidores individuais quanto as empresas recorrem cada vez mais a soluções off-line como a única maneira confiável de proteger seus acervos. A Ledger surgiu como a principal beneficiária dessa tendência. O CEO Pascal Gauthier observa que a crescente ameaça apenas reforça a necessidade de tais produtos.
"Estamos sendo hackeados mais e mais a cada dia... hackeando suas contas bancárias, suas criptomoedas, e isso não vai melhorar no próximo ano e no ano seguinte", disse ele ao Financial Times.
A Ledger é uma verdadeira veterana do mercado de carteiras de criptomoedas. A startup sediada em Paris começou sua jornada em 2014, e seus modelos Nano definiram o padrão para o armazenamento seguro de criptomoedas. Com o tempo, todo um ecossistema cresceu em torno deles, desde o aplicativo Ledger Live até soluções de infraestrutura voltadas para os negócios.
Na última década, a empresa evoluiu de um projeto de entusiasta de tecnologia para um dos nomes mais reconhecidos em criptografia. A Ledger conseguiu combinar confiabilidade técnica com design fácil de usar, criando um nicho entre produtos de nível institucional e de varejo. Como resultado, a empresa foi avaliada em US$ 1,5 bilhão em 2023.
Em 2025, a Ledger anunciou uma grande reformulação de sua linha de produtos. No evento Op3n 2025 em Paris, a empresa apresentou o Nano Gen5, o aplicativo Ledger Wallet atualizado e a plataforma corporativa Enterprise Multisig. A empresa agora se refere a seus dispositivos como "signatários" - ferramentas para verificação de transações, contratos inteligentes e identidade digital.
Apesar de seu domínio no mercado, a Ledger continua sendo uma das empresas mais controversas no espaço das criptomoedas. Seus produtos são frequentemente criticados por se desviarem do princípio central da descentralização - controle total do usuário sobre as chaves privadas. O serviço Ledger Recovery, que permite a restauração de frases-semente por meio da nuvem, provocou uma reação particularmente forte. Muitos o viram como uma ameaça à autocustódia e uma intrusão na responsabilidade do usuário.
Em 2020, uma grande violação de dados expôs milhões de endereços de clientes e detalhes de contato. Embora os fundos dos usuários não tenham sido afetados, as consequências foram significativas: um aumento nos ataques de phishing, reações públicas negativas e um impacto na reputação da empresa.
Desde então, a Ledger tem trabalhado para reconstruir a confiança, enfatizando a transparência e padrões de segurança mais fortes. Ainda assim, uma parte da comunidade Bitcoin continua cética, argumentando que a conveniência e a escala nunca devem justificar o comprometimento do princípio "nem suas chaves, nem suas moedas".
A Ledger está entrando em uma nova fase - com receitas recordes, uma linha de produtos atualizada e de olho no mercado de ações. No entanto, com o crescimento vem a responsabilidade: quanto mais os usuários confiarem seus ativos à empresa, maior será o custo de qualquer possível passo em falso.
Se a Ledger conseguir percorrer esse caminho sem perder sua reputação e fortalecer sua posição global, sua IPO poderá se tornar mais do que um marco corporativo - poderá marcar um momento decisivo para todo o setor de criptografia, provando que, no mundo dos ativos digitais, a segurança pode ser não apenas uma necessidade, mas um negócio global por si só.