Portugal acelera reforço da rede elétrica para reduzir risco de falhas ibéricas
Um ano após o apagão ibérico de 28 de abril de 2025, Portugal avança com novos investimentos e ajustes regulatórios para reforçar a estabilidade da sua rede elétrica. A conclusão técnica europeia afasta uma responsabilidade direta das renováveis e centra a falha em deficiências de controlo de tensão em Espanha, mantendo a interligação entre os dois mercados como fator de risco.
Destaques
- O relatório da ENTSO-E classificou o apagão de 28 de abril de 2025 com gravidade máxima, atribuindo a origem a falhas técnicas e regulatórias em Espanha.
- Portugal aprovou em julho de 2025 um pacote de 137 milhões de euros para modernizar a rede, com instalação de compensadores síncronos e expansão do armazenamento até 2 GW até 2030.
- Especialistas alertam que, apesar dos investimentos nacionais, vulnerabilidades na rede espanhola continuam a ameaçar a resiliência do abastecimento elétrico português devido à interligação ibérica.
Relatório europeu orienta resposta técnica
Como relata o ThePortugalPost, o relatório técnico final da ENTSO-E conclui que a origem do apagão esteve nos sistemas de controlo de tensão em Espanha e classifica o incidente de 28 de abril de 2025 com nível 3 de gravidade, a categoria mais elevada. O painel de 49 especialistas também exclui uma ligação direta entre a elevada produção solar e eólica e a falha, deslocando o foco para insuficiências operacionais, regulatórias e de capacidade de controlo dinâmico de tensão.Vítor Santos, antigo presidente da ERSE e professor no ISEG, afirma que a metodologia da ENTSO-E é rigorosa e que o episódio tem origem em deficiências técnicas, regulatórias e de incentivos no lado espanhol. Segundo o especialista, a transição energética está a impor novas exigências à gestão da rede, com recursos mais dispersos, menor inércia do sistema e maior complexidade na coordenação entre operadores de transporte e de distribuição.
João Peças Lopes, diretor do INESC TEC e professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, sustenta que o problema não esteve em Portugal. O académico diz que o país já tinha adotado medidas de suporte de tensão antes da crise, incluindo contributos obrigatórios de centrais solares para controlo de potência reativa, e que entidades como a REN, a E-Redes, a ERSE e a DGEG vêm a alinhar protocolos técnicos com os códigos europeus há vários anos.
Investimento e limites da proteção nacional
Portugal está a executar o PNEC 2030 com a meta de 2 GW de armazenamento até 2030, repartidos entre bombagem hidroelétrica e baterias, apoiado por verbas do PRR. Em julho de 2025, o país aprovou um pacote de 137 milhões de euros para modernização da rede, incluindo compensadores síncronos, equipamentos que reforçam a regulação automática de tensão e acrescentam inércia rotacional ao sistema.Em paralelo, avançam concursos e projetos de baterias de escala industrial ligados diretamente à rede pública, enquanto legislação recente simplifica o licenciamento de soluções híbridas e de armazenamento. A Madeira também prossegue projetos cofinanciados para reforçar a capacidade de regulação de tensão em cenários de elevada penetração renovável.
Apesar deste reforço, os especialistas alertam que medidas unilaterais portuguesas não eliminam o risco de um novo apagão. A rede espanhola é significativamente maior do que a portuguesa e a Península Ibérica funciona como um sistema elétrico interligado, pelo que vulnerabilidades em Espanha continuam a poder propagar-se ao abastecimento doméstico em Portugal.
Para empresas dependentes de fornecimento contínuo, como centros de dados, indústria e armazenagem frigorífica, a aceleração do armazenamento e das tecnologias de estabilização tende a reduzir o risco de falhas prolongadas. Ainda assim, a resiliência final da rede ibérica depende também da eficácia das reformas operacionais e regulatórias em Espanha e do reforço da coordenação transfronteiriça.
Na nossa publicação anterior sobre as novas regras de energia de emergência para infraestruturas críticas, explicámos as recomendações parlamentares para exigir autonomia mínima de 72 horas em hospitais, lares e serviços essenciais (e pelo menos 24 horas em infraestruturas secundárias). O texto também abordou a proposta de elevar os limites de armazenamento de combustível e os investimentos previstos para reforçar a resiliência da saúde, telecomunicações e armazenamento, com o objetivo de mitigar o impacto de falhas prolongadas na rede.
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