Tether sob pressão: USDT na Europa, questões de auditoria e a luta por confiança

Tether sob pressão: USDT na Europa, questões de auditoria e a luta por confiança
Tether sob pressão

​Apesar de registrar lucros recordes e continuar a expandir seus negócios, a Tether encontra-se cada vez mais no centro de debates sobre regulamentação, transparência e avaliação corporativa. Desenvolvimentos recentes sugerem que, à medida que a empresa se tornou um dos maiores players da indústria cripto, os desafios que ela enfrenta também evoluíram.

Este artigo foi traduzido do original. Leia a versão original do nosso correspondente aqui.

Nos últimos meses, vários eventos aparentemente não relacionados se desenrolaram em torno da Tether.

Conforme relatado pelo Cointelegraph, o USDT continua a enfrentar restrições em toda a Europa após a implementação do regulamento Markets in Crypto-Assets (MiCA). Ao mesmo tempo, o ex-diretor de investimentos da empresa está buscando um comprador para parte de sua participação, enquanto a Tether se prepara para passar por sua primeira auditoria financeira completa por uma das Big Four de contabilidade.

Enquanto isso, a empresa continua a reportar resultados financeiros sólidos e a expandir seus investimentos muito além do mercado de stablecoins.

Juntos, esses desenvolvimentos pintam um quadro incomum. Há apenas alguns anos, as principais questões em torno da Tether focavam em saber se o USDT era totalmente lastreado por reservas. Hoje, a empresa enfrenta um conjunto diferente de desafios.

À medida que seus negócios se expandem, a Tether deve se adaptar às demandas dos mercados regulamentados, às expectativas dos investidores institucionais e a padrões de transparência cada vez mais rigorosos. Até agora, no entanto, seu desempenho financeiro mostrou poucos sinais de enfraquecimento.

Europa torna-se o mercado mais difícil para o USDT

A pressão mais significativa sobre a Tether agora vem da Europa.

Desde que o MiCA entrou em vigor, as plataformas de criptomoedas que operam na União Europeia começaram gradualmente a restringir serviços envolvendo stablecoins cujos emissores não obtiveram a autorização exigida.

Como resultado, várias grandes plataformas de negociação já removeram o USDT de pares de negociação disponíveis para usuários europeus ou anunciaram planos para descontinuar o suporte ao token.

Um dos exemplos mais recentes é a Revolut, que afirmou que eliminaria gradualmente os serviços de USDT em todo o Espaço Econômico Europeu (EEE). Anteriormente, várias exchanges de criptomoedas que operam sob licenças europeias introduziram medidas semelhantes.

Isso não equivale a uma proibição do USDT em si. As restrições aplicam-se principalmente ao mercado europeu regulamentado, enquanto o token continua sendo a maior fonte de liquidez em dólares americanos em plataformas de negociação de cripto na maioria das outras regiões.

Mesmo assim, a situação ilustra que o futuro da Tether não pode mais ser visto apenas sob a ótica da indústria de criptomoedas. A empresa agora precisa navegar pelos requisitos regulatórios de jurisdições individuais, mesmo quando eles afetam apenas parte de sua base global de usuários.

Transparência e avaliação surgem como novos desafios

Ao mesmo tempo, o foco do mercado começou a mudar.

Onde as discussões antes se concentravam quase inteiramente na composição das reservas do USDT, a atenção está se voltando cada vez mais para a transparência corporativa e a avaliação da empresa.

No final de 2025, a S&P Global baixou sua avaliação sobre a capacidade do USDT de manter sua paridade com o dólar americano, citando preocupações contínuas sobre divulgações e a estrutura de suas reservas. A Tether rejeitou a avaliação, argumentando que a metodologia da agência não refletia a resiliência real da stablecoin.

Nesse contexto, a empresa deu um passo que o mercado antecipava há anos.

Na primavera de 2026, a Tether anunciou que havia iniciado sua primeira auditoria completa de demonstrações financeiras com a participação de uma das Big Four de contabilidade. Financial Times relatou posteriormente que a KPMG está conduzindo a auditoria, enquanto a PwC está ajudando a empresa a preparar seus controles internos e processos de relatórios financeiros para a revisão.

Apesar desse progresso, a auditoria ainda não foi concluída. Como resultado, a Tether continua a publicar atestados de reserva trimestrais em vez de um parecer de auditoria independente completo.

Outro desdobramento ocorreu após o CoinDesk relatar que o ex-Diretor de Investimentos Richard Heathcote está buscando um comprador para parte de sua participação na empresa. O movimento não indica, por si só, problemas com o negócio. No entanto, renovou o interesse do mercado na avaliação de uma das empresas mais lucrativas — e de capital mais fechado — da indústria de criptomoedas.

O império da Tether permanece firmemente intacto

Apesar do crescente escrutínio regulatório, o desempenho financeiro da Tether continua a contar uma história muito diferente.

A empresa continua sendo a emissora de stablecoin mais lucrativa do mundo e segue expandindo as reservas que lastreiam o USDT.

Para o primeiro trimestre de 2026, a Tether reportou mais de US$ 1 bilhão em lucro líquido, enquanto seu excedente de reserva atingiu o recorde de US$ 8,23 bilhões. Uma parcela substancial dessas reservas permanece investida em títulos do Tesouro dos EUA, permitindo que a empresa gere renda estável mesmo sem acelerar a emissão de USDT.

Ao mesmo tempo, a Tether está evoluindo constantemente além de seu papel como emissora de stablecoin.

Nos últimos anos, ela ampliou significativamente sua estratégia de investimento, alocando capital em inteligência artificial, mineração de Bitcoin, energia, telecomunicações, infraestrutura de pagamentos e robótica. Um de seus maiores investimentos recentes foi a participação na rodada de financiamento da NEURA Robotics, avaliada em até US$ 1,4 bilhão.

A diversificação ilustra que a gestão da Tether está se preparando para um futuro no qual o crescimento a longo prazo dependerá de muito mais do que apenas a circulação do USDT. Em vez de depender exclusivamente da emissão de stablecoins, a empresa está usando os lucros gerados por suas reservas para construir um ecossistema tecnológico mais amplo.

Os desafios da Tether refletem sua maturidade?

Hoje, a história da Tether não é mais definida apenas pelo debate familiar sobre se o USDT é suficientemente lastreado por reservas.

Muitas das questões que agora cercam a empresa são mais típicas de grandes instituições financeiras do que de firmas de criptomoedas.

A pressão regulatória na Europa, as expectativas de uma auditoria independente abrangente, os debates sobre a avaliação da empresa e o crescente interesse institucional sugerem que a Tether está entrando em uma nova fase de seu desenvolvimento — uma na qual suas atividades inevitavelmente atraem um escrutínio mais próximo dos reguladores e da comunidade financeira em geral.

Isso não significa que todas as perguntas pendentes tenham sido respondidas.

Pelo contrário, os próximos anos determinarão se a Tether conseguirá se adaptar com sucesso às expectativas regulatórias mais rigorosas, mantendo sua liderança no mercado de stablecoins.

O que já está claro, no entanto, é que os desafios atuais da empresa diferem fundamentalmente daqueles enfrentados há apenas alguns anos. Naquela época, a Tether precisava convencer o mercado de que seu modelo de negócios era viável. Hoje, a questão é se ela consegue atender aos padrões cada vez mais exigidos das maiores instituições financeiras do mundo.

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