Crédito à habitação em Portugal acelera para máximo de duas décadas em março de 2026
O aumento do crédito às famílias e às empresas em Portugal ganha força no início de 2026, numa fase em que os custos de financiamento voltam a subir e o crescimento económico perde dinamismo. No fim de março, o crédito à habitação atinge 113,6 mil milhões de euros e avança 10,6% em termos homólogos, enquanto a Euribor mais elevada pressiona as prestações dos contratos com taxa variável.
Destaques
- O crédito à habitação em Portugal atingiu 113,6 mil milhões de euros e registrou uma variação anual de 10,6%, o nível mais forte em duas décadas.
- A dívida das famílias subiu para 56,1% do PIB e o peso no rendimento disponível para 80,4%, enquanto os preços das casas bateram recorde em €3.107/m² em março de 2026.
- O Banco de Portugal reviu a projeção de crescimento do PIB para 1,8% em 2026, ante 2,3%, antecipando riscos devido a energia cara, crédito acelerado e capacidade de pagamento deteriorada.
Expansão do crédito e fatores de suporte
ThePortugalPost.com avança que os dados confirmados pelo Banco de Portugal mostram uma forte aceleração do crédito no fim de março de 2026, com o financiamento à habitação a atingir 113,6 mil milhões de euros, o crédito ao consumo a subir para 34,7 mil milhões e o crédito às empresas a chegar a 75,7 mil milhões de euros. No conjunto, a dívida das famílias, somando habitação e consumo, totaliza 148,3 mil milhões de euros.
A métrica usada pelo banco central assenta numa metodologia baseada em transações, que mede novas concessões e reembolsos e exclui efeitos cambiais e alterações de valorização. Segundo essa leitura, a taxa anual de variação de 10,6% no crédito à habitação representa o ritmo mais forte de novo endividamento líquido desde o período anterior à crise financeira.
O avanço do crédito empresarial, de 5,6% em termos homólogos, também sinaliza recuperação do investimento, apoiado por fundos do PRR e por uma linha de crédito de 600 milhões de euros destinada à resiliência energética. Já o crédito ao consumo cresce 8,4%, refletindo procura das famílias por financiamento para automóvel, crédito pessoal e produtos rotativos, apesar de um abrandamento esperado no rendimento disponível.
Impacto nas famílias, banca e economia
Para os agregados com empréstimos de taxa variável, a subida da Euribor traduz-se em prestações mensais mais elevadas. O texto indica que a taxa Euribor a 12 meses tocou 2,845% no início de abril de 2026, no nível mais alto desde meados de 2024, impulsionada por tensões no Médio Oriente e pelo choque nos preços da energia.As medidas públicas continuam, contudo, a sustentar a procura. A garantia estatal para compradores até aos 35 anos, válida até ao fim de 2026 e cobrindo até 15% do valor do imóvel, juntamente com a isenção de IMT para a primeira habitação, está a acelerar pedidos de crédito, sobretudo entre os mais jovens, num mercado em que os preços das casas atingem um novo recorde em março de 2026, de 3.107 euros por metro quadrado.
Ao mesmo tempo, os riscos de acessibilidade agravam-se. O rácio da dívida das famílias em percentagem do PIB sobe para 56,1% em 2025 e o peso da dívida no rendimento disponível alcança 80,4% no terceiro trimestre, invertendo a trajetória de descida dos últimos anos. O Banco de Portugal sinaliza riscos elevados de valorização e menor capacidade de pagamento, enquanto os bancos intensificam a concorrência nos spreads e antecipam uma desaceleração da procura no segundo trimestre de 2026.
No enquadramento macroeconómico, o banco central revê em baixa a previsão de crescimento do PIB português para 1,8% em 2026, face a 2,3% anteriormente, e aponta para uma inflação de 2,8%. A combinação de energia mais cara, prestações mais pesadas e confiança económica mais fraca sugere que a atual aceleração do crédito pode apoiar o consumo e o investimento no curto prazo, mas também aumentar a fragilidade financeira das famílias e das empresas nos próximos trimestres.
Na nossa publicação anterior sobre a subida da Euribor e o impacto nas prestações do crédito à habitação em Portugal, destacámos que as taxas a três, seis e 12 meses voltaram a máximos de vários meses no final de abril de 2026, pressionando sobretudo os contratos de taxa variável. Também explicámos como a manutenção das taxas diretoras pelo BCE e a incerteza associada à energia e ao contexto geopolítico alimentavam expectativas de custos de financiamento mais elevados, afetando a acessibilidade ao crédito e o mercado imobiliário.
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