Portugal reabre licenças de captação subterrânea no Algarve e Alentejo

Portugal reabre licenças de captação subterrânea no Algarve e Alentejo
Licenças de água reabertas

Com as barragens do sul em níveis elevados após um inverno chuvoso, Portugal volta a permitir novos pedidos de licenciamento para furos de captação de água subterrânea no Algarve e no Alentejo. A medida, anunciada após anos de restrições ligadas à seca, afeta agricultura, indústria e abastecimento municipal, mas mantém alertas sobre poluição e pressão estrutural sobre os aquíferos.

Destaques

  • Portugal reabriu em 30 de abril o licenciamento de novos furos subterrâneos nos aquíferos do Alentejo e Algarve, após melhoria das condições hidrológicas.
  • As novas licenças destinam-se a usos agrícola, industrial e municipal, permanecendo excluídos poços residenciais privados e sujeitos a análise inicial entre 60 e 90 dias.
  • Ambientalistas alertam para riscos de contaminação e salinização, destacando que metade dos aquíferos do Baixo Alentejo superavam limites legais de nitratos em 2021.

Reabertura das licenças e condições de acesso

The Portugal Post noticiou que o primeiro-ministro Luís Montenegro anunciou em 30 de abril o levantamento das restrições ao licenciamento de novos furos em sistemas aquíferos que estavam congelados devido à seca. A decisão surge após uma reunião do Conselho de Ministros realizada na Ovibeja, em Beja, e é justificada pelo Governo com a melhoria das condições hidrológicas, impulsionada pela chuva persistente do inverno.

Entre os sistemas abrangidos estão o aquífero de Moura-Ficalho, no Alentejo, e os de Querença-Silves e Almádena-Odiáxere, no Algarve. Segundo o presidente da Agência Portuguesa do Ambiente, José Pimenta Machado, as reservas armazenadas no sul garantem dois a três anos de disponibilidade em padrões normais de consumo, com as principais barragens em níveis cheios ou próximos disso.

A reabertura permite a apresentação de pedidos para novos furos destinados a uso agrícola, industrial e municipal. Poços residenciais privados para consumo doméstico não entram nesta medida, e os proprietários de captações já existentes não sofrem alterações. Os requerentes continuam sujeitos às regras da APA, incluindo demonstração de necessidade, avaliação de impacte ambiental quando exigida e respeito pelos perímetros de proteção definidos para evitar contaminação e sobre-exploração.

O prazo de análise inicial indicado para processos simples varia entre 60 e 90 dias, podendo aumentar se forem necessárias avaliações adicionais ou consulta pública. O Governo mantém em paralelo o programa de infraestruturas hídricas, com projetos como a dessalinizadora de Sines, uma nova tomada de água em Pomarão e outras melhorias no sul do país, apresentadas como resposta estrutural de longo prazo.

Impacto económico e riscos ambientais no sul

Para agricultores, empresas e municípios, a decisão elimina um bloqueio administrativo relevante numa fase em que o Alentejo e o Algarve continuam dependentes de recursos subterrâneos para reforçar o abastecimento. A flexibilização pode aliviar constrangimentos em períodos secos e apoiar atividade agrícola, turística e industrial nas regiões mais expostas à escassez de água.

Ao mesmo tempo, associações ambientais e especialistas em gestão hídrica consideram a decisão precipitada, sobretudo antes do pico do verão, quando a procura no Algarve sobe com o turismo. Os críticos defendem que um inverno húmido não resolve a vulnerabilidade estrutural associada às alterações climáticas, ao excesso de extração e à monitorização insuficiente.

No Alentejo, o risco de contaminação mantém-se particularmente sensível. Em 2021, metade dos aquíferos do Baixo Alentejo registava presença de nitratos, e o aquífero Gabros de Beja foi classificado como muito poluído por nitratos; além disso, 79% dos aquíferos da região tinham pelo menos um ponto de amostragem acima dos limites legais para nitratos ou azoto amoniacal. Novas captações podem acelerar a dispersão de poluentes e, no Algarve, aumentar também o risco de salinização dos aquíferos costeiros.

Luís Montenegro reconhece a necessidade de gestão rigorosa, equilibrada e eficiente dos recursos hídricos no âmbito da estratégia Água que Une. O teste mais imediato chega no verão de 2026, quando a procura turística e a rega agrícola aumentam; se os níveis das barragens caírem rapidamente ou a monitorização mostrar pressão sobre os aquíferos, poderá crescer a pressão para novas restrições.

Na nossa publicação anterior sobre a prorrogação da moratória de crédito para empresas afetadas pela tempestade Kristin, explicámos como o Governo alargou o mecanismo até abril de 2027 para permitir adiar capital e juros e preservar liquidez durante a recuperação. O texto detalhou quem pode aceder à medida e como ela se enquadra num pacote mais amplo de apoio ao setor, com linhas de crédito e outros instrumentos públicos para reforçar a resiliência perante eventos meteorológicos extremos.

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