Portugal regista menor intenção de mudar de emprego em meio a pressão salarial e incerteza económica

Portugal regista menor intenção de mudar de emprego em meio a pressão salarial e incerteza económica
Estabilidade no emprego em alta

Os trabalhadores em Portugal estão a privilegiar a estabilidade num mercado laboral marcado por salários considerados insuficientes e perspetivas limitadas de progressão. Um inquérito recente mostra que apenas 23% dos profissionais tencionam mudar de emprego nos próximos 12 meses, sinalizando maior aversão ao risco apesar da insatisfação persistente.

Destaques

  • A intenção de mudança de emprego em Portugal caiu para 23%, contra 46% em anos anteriores, refletindo maior cautela em contexto de incerteza económica.
  • Mais de metade dos trabalhadores considera o salário insuficiente devido à inflação, sendo este fator mais crítico entre mulheres, enquanto 70% exigem equilíbrio entre vida pessoal e trabalho.
  • Empresas portuguesas enfrentam pressão para adotar medidas como flexibilidade, transparência salarial e progressão de carreira, especialmente com exigências crescentes de gerações jovens e média.

Queda da mobilidade laboral e fatores de retenção

The Portugal Post noticia, com base num estudo de employer branding da Randstad, que a intenção de mudança de emprego entre profissionais em Portugal desce para 23%, muito abaixo dos 46% registados em anos anteriores. O movimento reflete uma procura crescente por segurança perante a volatilidade económica, mesmo quando as razões de descontentamento no trabalho permanecem praticamente inalteradas.

A remuneração continua a ser a principal queixa entre os trabalhadores, com mais de metade a considerar o salário insuficiente num contexto em que a inflação corrói o poder de compra. Entre as mulheres, o peso do salário como motivo para procurar saída surge de forma mais acentuada do que entre os homens.

A progressão na carreira também continua a pesar nas decisões dos trabalhadores. Cerca de um terço afirma que sairá se não houver um percurso profissional claro, enquanto persiste um desfasamento entre o otimismo das chefias sobre mobilidade interna e a perceção dos restantes funcionários, que relatam poucas oportunidades reais de avanço.

O equilíbrio entre vida pessoal e trabalho consolida-se igualmente como exigência central. Mais de 70% dos inquiridos classificam esse fator como essencial, e os regimes híbridos e remotos deixam de ser vistos como benefício adicional para passarem a expectativa de base, embora a adoção continue desigual entre empresas portuguesas devido a limitações tecnológicas e operacionais.

Impacto nas empresas e no mercado de trabalho português

O retrato do mercado laboral português aponta para um paradoxo, a insatisfação mantém-se elevada, mas a disposição para sair diminui. Isso cria um quadro em que muitos profissionais permanecem nas funções por necessidade e prudência, e não por maior compromisso com as entidades empregadoras.

Para as empresas, a retenção passa a depender de uma combinação mais ampla de medidas, incluindo flexibilidade, apoio à saúde mental, transparência salarial e vias claras de desenvolvimento. O estudo também sugere diferenças geracionais relevantes, com trabalhadores mais jovens a valorizarem autonomia, ferramentas digitais e aprendizagem contínua, enquanto profissionais em meio de carreira mostram maior foco em equidade remuneratória e segurança para a reforma.

Ao mesmo tempo, a expansão de modelos híbridos, programas de requalificação e uso de ferramentas de inteligência artificial no recrutamento está a alterar expectativas e processos de trabalho. Se as empresas limitarem a resposta a anúncios formais sem execução prática, o abrandamento na mobilidade pode revelar-se temporário e traduzir-se em menor produtividade, menor inovação e risco futuro de saída de talento.

Na nossa publicação anterior sobre a greve geral convocada pela CGTP para 3 de junho, detalhámos as perturbações previstas em transportes, saúde, ensino e serviços municipais, bem como o enquadramento legal do direito à greve e dos serviços mínimos. Também explicámos que a paralisação surge como protesto contra alterações laborais vistas pelos sindicatos como potenciadoras de maior precariedade, num contexto que incluiu ainda polémica política na Câmara do Porto sobre a comunicação de iniciativas internas na véspera e no dia da greve.

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