Economia de Portugal abranda no primeiro trimestre com PIB estagnado em cadeia

Economia de Portugal abranda no primeiro trimestre com PIB estagnado em cadeia
PIB de Portugal estagna

Portugal regista um crescimento homólogo de 2,3% no primeiro trimestre, mas a atividade económica fica sem expansão face aos últimos três meses de 2025. O abrandamento surge num momento em que o investimento apoiado pelo PRR sustenta a procura interna, enquanto o consumo das famílias perde força e os custos de energia agravam os riscos para 2026.

Destaques

  • O PIB de Portugal cresceu 2,3% em termos homólogos no primeiro trimestre de 2026, mas estagnou em cadeia após +0,9% no 4T 2025.
  • O investimento direto estrangeiro totalizou 2,099 mil milhões de euros no trimestre, concentrando-se em imobiliário, tecnologia e energias renováveis, segundo o Banco de Portugal.
  • A CIP reviu em baixa a previsão de crescimento do PIB para 2026 de 1,8% para 1,5%, citando aumento rápido dos preços de petróleo, gás e matérias-primas.

PIB do primeiro trimestre expõe travagem do ritmo

Conforme divulgou o Instituto Nacional de Estatística, a economia portuguesa cresce 2,3% em termos homólogos entre janeiro e março, mas regista variação nula em cadeia, após o avanço de 0,9% no quarto trimestre de 2025.

As contas nacionais trimestrais mostram uma divergência entre os motores internos e externos. A procura interna volta a contribuir positivamente, impulsionada pela aceleração da formação de capital, sobretudo em infraestruturas e construção ligadas ao Plano de Recuperação e Resiliência, mas a balança externa deteriora-se porque as importações de bens e serviços avançam mais depressa do que as exportações.

O consumo privado, que tinha sustentado o crescimento em trimestres anteriores, desacelera de forma visível. Essa perda de dinamismo reforça a leitura de que a expansão fica mais frágil quando se exclui o efeito do investimento, apesar do apoio dos fundos europeus cuja execução deverá atingir um pico em 2026.

CIP revê em baixa a previsão de crescimento do PIB para 2026 para 1,5%, abaixo dos 1,8% estimados antes, citando a subida rápida dos preços do petróleo, do gás natural e de várias matérias-primas em março. A revisão aproxima-se de um movimento mais amplo de cortes nas previsões europeias, num contexto em que também cresce o risco de condições de financiamento mais apertadas se o Banco Central Europeu endurecer a política monetária.

Impacto no consumo, investimento e confiança

Para as famílias, o principal efeito continua a ser a pressão sobre o poder de compra. Os ganhos salariais reais permanecem condicionados pela inflação na energia e na alimentação, e a confiança dos consumidores recupera em maio apenas de forma parcial, depois de ter tocado em abril o nível mais baixo em 18 meses.

No tecido empresarial, o quadro é misto. Os indicadores de clima económico melhoram em abril e maio nos serviços, na construção e na indústria transformadora, com apoio de perspetivas de procura mais favoráveis e carteiras de encomendas mais cheias, enquanto o comércio a retalho segue em sentido contrário, refletindo vendas mais fracas e maior prudência dos consumidores.

O investimento estrangeiro direto atinge 2,099 mil milhões de euros no primeiro trimestre, segundo dados divulgados pelo Banco de Portugal em 28 de maio, sinalizando que o país continua a atrair capital apesar da incerteza macroeconómica. Os fluxos mantêm interesse por imobiliário, tecnologia e energias renováveis, beneficiando também das prioridades de transição digital e climática associadas ao PRR.

A execução do PRR torna-se assim decisiva para o resultado anual. Se os projetos de infraestruturas, energia renovável, digitalização e obras públicas acelerarem no segundo semestre, Portugal poderá preservar um desempenho acima da média da zona euro; se persistirem atrasos administrativos, escassez de mão de obra e custos energéticos elevados, a atual perda de velocidade poderá prolongar-se.

Na nossa cobertura anterior sobre a escalada dos custos da energia em Portugal em 2026, detalhámos como a tensão geopolítica e a volatilidade no gás natural e na eletricidade podem traduzir-se em faturas mais elevadas para famílias e empresas. Também salientámos que, apesar do peso elevado das renováveis na produção doméstica, a dependência energética externa mantém o país exposto a choques, com efeitos potenciais no consumo, nas margens das empresas e nas previsões de crescimento.

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