Portugal arrisca perder investimento e cadeia industrial do eólico offshore para Espanha
Portugal enfrenta o risco de ver milhares de milhões de euros em capital internacional migrarem para Espanha se continuar a adiar o primeiro leilão de eólico offshore flutuante. Mesmo com uma aceleração imediata dos procedimentos, os primeiros projetos só deverão entrar em operação depois de 2030, deixando o país vários anos atrás dos concorrentes ibéricos.
Destaques
- Atrasos no primeiro leilão português de eólico offshore e ausência de regras e calendário vinculativo arriscam desviar investimento e fornecedores para Espanha.
- Espanha avança com roteiro offshore publicado, meta de 3 GW até 2030 e cadeia industrial madura, consolidando vantagem competitiva face à meta portuguesa de 2 GW.
- O setor renovável contribui com 5,3 mil milhões de euros anuais para o PIB português, mas um novo adiamento pode aumentar a dependência nacional do gás natural.
Leilão continua sem regras finais
A The Portugal Post informa que a APREN alertou para o facto de os atrasos no arranque do primeiro leilão português de eólico offshore flutuante poderem desviar investimento, fornecedores e capacidade industrial para outros mercados, sobretudo Espanha. A associação sustenta que o interesse dos promotores internacionais se mantém, mas avisa que essa disponibilidade não é ilimitada num contexto em que outros países já avançam com calendários e enquadramentos regulatórios mais previsíveis.Embora o Ministério do Ambiente e da Energia tenha aprovado em janeiro de 2025 o Plano de Afetação para as Energias Renováveis Offshore, o governo ainda não publicou as regras do leilão nem um calendário vinculativo. A APREN, pela voz de Susana Serôdio, coordenadora de intelligence de mercado, defende que o país corre o risco de perder não só projetos, mas também toda a cadeia de valor associada ao setor.
O principal bloqueio continua a ser a viabilidade económica. O executivo mantém que o leilão só avança se o custo de apoio puder ser mitigado por mecanismos de cofinanciamento da União Europeia ou por parcerias com outros Estados-membros, numa tentativa de evitar pressão adicional sobre as tarifas elétricas.
O modelo definido no Despacho n.º 4752/2025 prevê uma abordagem sequencial centralizada, com atribuição inicial das zonas marítimas e uma ronda competitiva posterior para apoio através de contratos por diferença, os CfDs. Ainda assim, continuam por esclarecer elementos centrais, como volumes efetivos do leilão e preços de referência, o que prolonga a incerteza para investidores e financiadores.
Vantagem espanhola aumenta pressão competitiva
Espanha avança mais depressa com um roteiro offshore já publicado, simplificação do licenciamento e projetos de grande escala em desenvolvimento, incluindo o Parc Tramuntana ao largo da Catalunha. A meta espanhola de 3 GW até 2030 supera a meta revista de 2 GW em Portugal e reforça a perceção de uma diferença crescente na capacidade de execução entre os dois mercados.Além do enquadramento regulatório, Espanha parte com uma base industrial mais madura, com estaleiros, siderurgia e uma cadeia de fornecimento capaz de adaptar experiência do eólico onshore ao mar. A APREN assinala também um maior recurso a PPAs no mercado espanhol, contratos de longo prazo que ajudam a tornar os projetos financiáveis, enquanto em Portugal a menor dimensão média das empresas limita esse instrumento em grande escala.
Para a economia portuguesa, o atraso tem implicações que vão além da captação de capital. O setor renovável já contribui com 5,3 mil milhões de euros por ano para o PIB e reduz custos energéticos ao substituir importações de combustíveis fósseis, enquanto a ausência de nova capacidade offshore poderá aumentar a dependência do gás natural e dos fluxos de interligação com Espanha.
O impacto potencial estende-se ao emprego, à atividade portuária e ao desenvolvimento tecnológico ligado a plataformas flutuantes, cabos dinâmicos e subestações offshore. Embora Portugal tenha a experiência do WindFloat Atlantic desde 2020, a passagem de um projeto-piloto para capacidade em escala de gigawatts exige reforço de portos, rede elétrica, embarcações especializadas e um quadro financeiro estável.
O governo mantém o leilão apontado para o terceiro trimestre de 2026, mas a condição de viabilidade económica e as negociações de financiamento europeu deixam o calendário sob pressão. Se Portugal não fechar rapidamente as regras e o modelo de apoio, arrisca ver a oportunidade industrial do eólico offshore atlântico consolidar-se do outro lado da fronteira.
Na nossa publicação, já abordámos o adiamento do leilão de eólica offshore em Portugal e o alerta da APREN de que a demora pode empurrar projetos e investimento industrial para mercados mais rápidos, como Espanha. O texto também destacou os obstáculos de financiamento e a necessidade de mecanismos como PPA e CfD (com garantias) para tornar os parques viáveis e preservar a janela de oportunidade e a cadeia de valor associada ao setor.
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