Portugal acelera adoção de IA nas empresas com agenda de 400 milhões de euros até 2030
As empresas em Portugal entram numa fase decisiva para reforçar o uso de inteligência artificial, num momento em que o país fica abaixo das metas europeias definidas para 2030. Apenas 15% das empresas usam atualmente esta tecnologia, o que amplia a pressão sobre PME, grandes grupos e decisores públicos para acelerar investimento, formação e cumprimento regulatório.
Destaques
- Portugal lançou a Agenda Nacional para a Inteligência Artificial 2026-2030, com mais de 400 milhões de euros, visando acelerar a adoção empresarial de IA.
- As grandes empresas em Portugal atingem 49% de adoção de IA e as PME 11,5%, abaixo da média da UE de 55% e 20% respectivamente, ampliando o gap competitivo.
- O plano inclui incentivos diretos de até 300 mil euros por PME com subvenções não reembolsáveis de 75%, além de deduções fiscais SIFIDE II até 82,5% de I&D elegível.
Metas europeias e programas de apoio
A Comissão Europeia, no mais recente relatório Digital Decade State of Play, indica que Portugal continua atrás da média da União Europeia na adoção empresarial de inteligência artificial, com 49% nas grandes empresas e 11,5% nas PME, face a 55% e 20% no bloco europeu, respetivamente.O desfasamento ganha peso adicional porque a meta da UE aponta para 75% de adoção até 2030. O ritmo de crescimento também permanece inferior ao europeu, com Portugal a registar 33,7% em termos anuais, enquanto a média da UE sobe 58%, sinalizando um alargamento da diferença.
Em janeiro, o Governo português lança a Agenda Nacional para a Inteligência Artificial, ANIA 2026-2030, com mais de 400 milhões de euros destinados a infraestrutura, inovação, desenvolvimento de talento e enquadramento ético. Deste montante, 25 milhões de euros seguem para a digitalização da administração pública, enquanto a maior parte apoia incentivos à adoção pelas empresas.
Entre os principais mecanismos está a Linha IA para PME, no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, com subvenções não reembolsáveis de 75% para projetos de aumento de produtividade com IA, até um máximo de 300 mil euros por empresa. O instrumento abrange despesas com software, equipamentos, contratação técnica e consultoria, com candidaturas abertas a partir de março de 2026.
O Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade e o Portugal 2030, através do SICE Qualificação PME, complementam a oferta com apoio a otimização de processos, transformação digital e investimentos em IA, CRM, Business Intelligence e consultoria. No plano fiscal, o SIFIDE II permite deduções até 82,5% das despesas elegíveis em I&D no IRC, enquanto o RFAI, prolongado até 2027, prevê deduções para aquisição de ativos produtivos ligados à IA.
Impacto na competitividade e na preparação das empresas
O atraso na adoção tecnológica afeta a posição competitiva de Portugal no mercado único, sobretudo em cadeias de abastecimento europeias cada vez mais apoiadas em automação, controlo de qualidade e logística inteligente. Distribuição, turismo, hotelaria e indústria transformadora figuram entre os setores com maior potencial de ganho de produtividade, embora continuem sub-representados nas estatísticas de adoção.A escassez de competências digitais reforça este desafio. Atualmente, 74% da população portuguesa detém competências digitais básicas, abaixo da meta europeia de 80% para 2030, enquanto os especialistas tecnológicos representam cerca de 5% do emprego total, metade do objetivo de 10% definido por Bruxelas.
Os obstáculos relatados pelas empresas incluem resistência interna à mudança, apontada por 33% das organizações, falta de conhecimento interno, mencionada por 31%, e preocupações com privacidade e segurança, referidas por 26,6%. Os custos de implementação travam 24,1% das empresas, ao mesmo tempo que 17% não dão qualquer formação em IA aos trabalhadores nos últimos 12 meses, apesar de 98% reconhecerem a necessidade de novas competências.
O enquadramento regulatório também pesa nas decisões. O Regulamento Europeu da IA, AI Act, já se aplica em Portugal e obriga as empresas a classificarem os sistemas por nível de risco e a cumprirem requisitos de supervisão correspondentes, num contexto em que apenas 21,2% das empresas dizem ter orientações internas formais para IA.
Portugal apresenta, ainda assim, vantagens de base na infraestrutura digital, com cobertura 5G de 99% da população, penetração residencial de fibra ótica de 96% e redes de muito elevada capacidade em 97% do território. Estes indicadores sustentam uma base favorável à adoção de IA, mas a utilização de serviços cloud pelas empresas permanece em 45%, também abaixo da meta europeia de 75% até 2030.
A nossa análise sobre a missão empresarial saudita a Portugal destacou as reuniões, entre 18 e 25 de junho, focadas em infraestruturas, energia renovável e parcerias tecnológicas. O objetivo é captar capital do Golfo e, em paralelo, abrir oportunidades para PME portuguesas avaliarem projetos e entrada no mercado da Arábia Saudita, reforçando o posicionamento do país como porta de entrada europeia para investidores da região.
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