Famílias portuguesas reduzem gasto por viagem apesar do aumento do turismo interno
As famílias portuguesas estão a viajar mais dentro do país, mas com orçamentos mais apertados, num sinal de que a inflação continua a condicionar o consumo de lazer. Em 2025, as deslocações turísticas internas sobem para 22,2 milhões, enquanto a despesa média por viagem cai 4,2% para 265,10 euros.
Destaques
- Em 2025, os residentes em Portugal realizaram 26 milhões de viagens turísticas, um aumento de 13,7%, apesar da despesa interna per capita cair 2,9% para 171,60 euros.
- A costa alentejana ultrapassou o Algarve como destino mais procurado, recebendo 60% dos turistas domésticos, enquanto 77% das famílias recorrem ao subsídio de férias para viagens.
- Os custos fixos elevados, inflação prevista até 4,2% nos serviços e IVA de 23% impulsionam escolhas turísticas mais baratas e pressionam os orçamentos familiares em Portugal.
Dados do INE mostram mudança nos padrões de férias
Segundo The Portugal Post, citando o Instituto Nacional de Estatística, os residentes em Portugal realizam 26 milhões de viagens turísticas em 2025, mais 13,7% do que no ano anterior, num quadro em que o aumento das deslocações não se traduz em maior despesa por pessoa.Os dados apontam para uma descida de 2,9% na despesa por pessoa em viagens internas, para 171,60 euros, e para uma queda de 4,8% no orçamento das viagens internacionais, para 803,20 euros. A pressão é reforçada pelas previsões de inflação para 2026, que variam entre 3,1% e 3,4%, e pela inflação dos serviços, que atinge 4,2% em junho de 2026, o valor mais elevado desde agosto de 2025.
As escolhas dos consumidores refletem esse ajustamento. Quase 47% dos viajantes portugueses privilegiam destinos nacionais, enquanto a costa alentejana ultrapassa o Algarve como destino interno preferido, com 60% dos turistas domésticos contra 30% no sul do país. A marcação antecipada, entre dois e quatro meses antes, ganha peso, tal como o recurso ao subsídio de férias, do qual dependem cerca de 77% dos agregados para financiar as escapadas de verão.
Um estudo do IPAM indica ainda que o orçamento médio de férias sobe nominalmente para 750 euros por pessoa, mas representa apenas uma subida de 5% face a 2019, muito abaixo da inflação acumulada de 19,5% no mesmo período. Isso está a empurrar as famílias para companhias aéreas low cost, alojamentos com cozinha e viagens fora da época alta.
Pressão fiscal e custos fixos agravam o esforço das famílias
A contenção nas férias surge num contexto mais amplo de pressão sobre o rendimento disponível. A taxa normal de IVA de 23% em Portugal continua entre as mais elevadas da União Europeia, acima da aplicada em segmentos turísticos por países vizinhos como Espanha e França, o que agrava o custo de compras, alugueres de curta duração não enquadrados como alojamento formal e outras despesas associadas às viagens.Ao mesmo tempo, os encargos com habitação, energia, transportes e telecomunicações continuam a limitar a margem orçamental. Em 2026, a atualização das rendas permite aumentos até 2,24%, enquanto um apartamento T1 no centro de Lisboa ronda 1.413 euros por mês e no Porto cerca de 1.025 euros. Apesar de o salário médio bruto mensal ter subido 5,6% em 2025, para 1.694 euros, o ganho real fica em 3,2%, e o salário mínimo de 920 euros em 2026 continua a deixar o poder de compra abaixo da média da União Europeia.
O abrandamento da confiança dos consumidores e a vigilância orçamental de Bruxelas reforçam o cenário de prudência. A Comissão Europeia pede medidas restritivas na proposta de Orçamento do Estado para 2027, alertando para o risco de Portugal exceder os limites de despesa líquida, mesmo com a trajetória da dívida pública a melhorar. Neste quadro, a procura de férias mais curtas, simples e planeadas com antecedência tende a consolidar-se como resposta estrutural das famílias portuguesas à inflação.
No nosso artigo anterior sobre o reforço do desconto fiscal nos combustíveis, explicámos que o Governo anunciou uma redução do ISP (com efeito do IVA) de 7,4 cêntimos por litro no gasóleo e 5,7 cêntimos na gasolina para mitigar a subida dos preços. O texto também destacou a polémica política em torno da portaria publicada e o impacto da carga fiscal nos custos de energia e transportes, num contexto de pressão crescente no custo de vida.
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