Portugal mantém mais de 8.000 bolseiros de investigação sem contratos de trabalho
Um ano após o enquadramento legal que abriu caminho à substituição de bolsas por contratos, milhares de investigadores em Portugal continuam sem vínculo laboral formal. A falta de execução mantém a pressão sobre o Ministério da Educação, Ciência e Inovação e expõe a precariedade no sistema científico durante um dos principais eventos do setor.
Destaques
- Mais de 8.000 bolseiros de investigação em Portugal continuam sem contratos de trabalho, apesar da legislação aprovada em 2024 e de compromissos políticos do Governo.
- Desde janeiro de 2025, o subsídio mensal dos bolseiros foi atualizado para 870 euros, mas eles permanecem sem proteções laborais nem cobertura integral da Segurança Social.
- A FCT anunciou 1.600 novas bolsas de doutoramento para 2026, mas sem reforma estrutural, o setor científico enfrenta dualidade entre quadros estáveis e precariedade crescente.
Protesto expõe falha na aplicação da lei
Como noticiou o ThePortugalPost, dezenas de investigadores manifestam-se esta semana junto ao Centro de Congressos de Lisboa, durante a abertura do Encontro Ciência e Inovação 2026, para exigir a regularização prometida pelo Governo. A ação foi organizada pela Associação dos Bolseiros de Investigação Científica, ABIC, e pela Fenprof, que denunciam a ausência de qualquer conversão de bolsas em contratos de trabalho apesar dos compromissos políticos assumidos desde 2024.Sara Romão, porta-voz da ABIC, disse à agência Lusa que mais de 8.000 bolseiros vivem há anos em condições precárias e que, apesar da legislação aprovada no ano passado, nada aconteceu até agora. Durante o evento de julho, as organizações entregaram um manifesto formal ao primeiro-ministro e ao ministro da Educação a pedir a regularização imediata do estatuto profissional destes trabalhadores.
O ponto de referência legislativo é o Decreto-Lei 65/2024, que alterou em outubro de 2024 o Estatuto do Bolseiro de Investigação. O diploma passou a permitir até 150 horas de docência por ano letivo e clarificou condições para o exercício de outras funções remuneradas, mas não impôs a conversão automática para contratos de trabalho.
Mais tarde, legislação orçamental incumbiu o Governo de criar um modelo contratual laboral para substituir as bolsas e assegurar melhores condições, incluindo cobertura integral da Segurança Social. Essa implementação continua por concretizar, sem calendário ou mecanismo anunciado.
Impacto no emprego científico e no setor
Para doutorandos, pós-doutorados e investigadores de projeto em Portugal, a situação mantém o vínculo profissional num limbo. No regime atual, os bolseiros recebem um subsídio mensal, atualizado para 870 euros desde janeiro de 2025 em linha com a evolução do salário mínimo, mas continuam sem as proteções típicas de um contrato de trabalho, incluindo maior capacidade de negociação sobre carga horária e condições laborais.Para investigadores estrangeiros a residir em Portugal, a ausência de contrato formal também dificulta renovações de residência e o acesso a serviços públicos, além de enfraquecer pedidos de crédito à habitação e contratos de arrendamento. A criação do novo modelo contratual aproximaria o país das práticas em vigor noutros sistemas científicos europeus, onde posições de doutoramento e pós-doutoramento são tratadas como relações de emprego.
O Encontro Ciência e Inovação 2026, subordinado ao tema "Preparar o Futuro", é organizado pela nova Agência para a Investigação e Inovação, AI², resultante da fusão da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, FCT, com a Agência Nacional de Inovação, ANI. Segundo o ministério, o encontro pretende valorizar a comunidade científica, tecnológica, empresarial e de inovação, mas o protesto junto ao evento sublinha a tensão entre a estratégia oficial para o setor e a precariedade persistente dos investigadores em início de carreira.
A Fenprof defende não só a regularização dos vínculos precários, mas também mais financiamento público para emprego científico e maior democracia interna nas instituições de investigação. A coligação sindical, que inclui a ABIC, a Fenprof e a Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais, promete novas ações se não houver medidas concretas até ao fim do verão.
A FCT anunciou ainda 1.600 novas bolsas de doutoramento para 2026, acima das 1.550 atribuídas em 2025. Sem reforma estrutural, porém, o reforço arrisca prolongar um modelo a duas velocidades, com quadros académicos estáveis de um lado e milhares de trabalhadores científicos em regime precário do outro.
Na nossa publicação, já analisámos o excedente recorde da Segurança Social em Portugal em 2024 e o que ele indica sobre a composição da despesa pública, com destaque para pensões e saúde. Nesse contexto, sublinhámos que, apesar do saldo positivo apoiado pelo mercado de trabalho e pelas contribuições, o envelhecimento demográfico mantém a pressão sobre a sustentabilidade no médio e longo prazo.
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