Ações exportadoras e de commodities recuam apesar de rali do Ibovespa após 1º turno
O avanço do Ibovespa no período eleitoral não se espalha por todo o mercado, e um grupo de ações ligado à exportação, commodities e negócios mais expostos ao dólar segue em queda. Entre os papéis com desempenho negativo desde o primeiro turno estão WEG, Usiminas, CSN, Embraer, Bradespar, Suzano, Vibra Energia e Klabin, mesmo com o índice renovando recordes em outubro.
Destaques
- Apesar da valorização de 10,82% do Ibovespa em outubro, oito ações com alta exposição ao dólar e commodities acumularam perdas, como WEG (-12,13%) e Usiminas (-11,10%).
- A queda de 3,64% do dólar em outubro e 8,42% em 2026 freou receitas e margens de exportadoras como Suzano, Klabin e Embraer devido à conversão desfavorável e custos em reais.
- Bradespar negociava com desconto de 33,2% ante seu valor líquido de ativos de R$ 11,36 bilhões em 15 de outubro, refletindo pressão sobre Vale e fatores externos como demanda chinesa e minério de ferro.
Queda concentra-se em empresas expostas ao dólar
Conforme mostrou a Exame Mercados, o rali eleitoral da bolsa brasileira beneficia sobretudo empresas mais ligadas ao consumo doméstico e à perspetiva de queda dos juros futuros, mas não produz uma alta generalizada entre os componentes do Ibovespa.Até o fecho de quarta-feira, 21, oito das 76 ações do índice registavam variação negativa no período eleitoral. A maior queda era da WEG, de 12,13%, seguida por Usiminas, com recuo de 11,10%. Na sequência apareciam CSN, com baixa de 7,46%; Embraer, com recuo de 6,53%; Bradespar, queda de 5,83%; Suzano, desempenho negativo de 3,86%; Vibra Energia, que caía 3,46%; e Klabin, com recuo de 2,26%.
O movimento contrasta com a valorização de 10,82% do Ibovespa em outubro, num mês marcado por recordes históricos do índice após o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. No ano, a bolsa acumula alta de 29,08%, enquanto o dólar recua 3,64% apenas em outubro e perde 8,42% frente ao real em 2026.
Segundo Renato Reis, analista da Blue3 Investimentos, a desvalorização da moeda norte-americana explica parte importante dessa divergência. Empresas com receitas muito dolarizadas, margens dependentes de um dólar mais alto ou exposição a commodities tendem a sofrer mais quando o câmbio cai, porque perdem receita convertida em reais e enfrentam piora de margem com custos fixos mais concentrados.
Esse efeito ajuda a explicar o desempenho de Suzano, Klabin e Embraer, que têm forte exposição internacional. Matheus Jaconeli, analista da ZIIN Investimentos, DTVM da Unicred, afirma que a queda do dólar reduz a receita convertida, comprime margens operacionais e enfraquece a perspetiva de geração de caixa em moeda local.
A WEG também enfrenta essa pressão, embora não seja produtora de commodities. Além da exposição ao mercado internacional, a empresa lida com a expectativa de normalização da procura global por equipamentos industriais e com uma avaliação considerada elevada. No terceiro trimestre de 2026, a companhia registou lucro líquido de R$ 1,665 bilhão, alta anual de 0,9%, enquanto a margem EBITDA caiu de 22,2% para 21,6%, um sinal de que o mercado olha não só para o lucro, mas também para margens e expectativas já embutidas no preço.
Mineração, siderurgia e combustíveis ampliam contraste
CSN, Usiminas e Bradespar reúnem pressões que vão além do cenário político doméstico. Nas siderúrgicas, pesam as perspetivas para minério de ferro e aço, a procura internacional e o custo de financiamento, num contexto em que o comportamento das commodities metálicas tem mais influência sobre as ações do que os eventos internos do Brasil.No caso da CSN, Jaconeli destaca que o nível elevado de alavancagem amplia a pressão, porque a empresa fica exposta tanto à desvalorização do minério quanto às despesas financeiras. Já a Bradespar depende diretamente do valor da sua participação na Vale. Segundo Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos, a holding detinha 163,35 milhões de ações ordinárias da mineradora em 15 de outubro de 2026, equivalentes a 3,84% do capital da companhia.
Além da cotação da Vale, o mercado observa o desconto de holding, diferença entre o valor dos ativos e o valor de mercado da empresa de participações. Em 15 de outubro, o valor líquido dos ativos da Bradespar era de R$ 11,36 bilhões, ante valor de mercado de cerca de R$ 7,59 bilhões, o que representa desconto de 33,2%. A ação pode cair tanto pela desvalorização da Vale quanto pela ampliação desse desconto.
A pressão sobre a Vale também reflete a procura chinesa por aço, os preços internacionais do minério de ferro e as perspetivas de oferta global. A fraqueza do setor imobiliário chinês e o aumento esperado da oferta da commodity pressionam a rentabilidade esperada para o setor e acabam por afetar a Bradespar sem que a holding enfrente um problema operacional próprio.
Na Vibra Energia, a queda desde o primeiro turno é associada à dinâmica do mercado de distribuição de combustíveis. Reis aponta como fatores a desvalorização do dólar, que afeta os preços dos combustíveis, e a expectativa de normalização de margens que tinham sido favorecidas por condições específicas do mercado, reforçando que o apetite por risco na bolsa brasileira não elimina pressões setoriais e operacionais sobre ações específicas.
Na nossa cobertura anterior sobre a aceleração do mercado acionista brasileiro após o primeiro turno das eleições presidenciais de 2026, mostramos como se ampliou rapidamente o número de ações com alta acumulada acima de 50% no ano, num movimento acompanhado por forte aumento de liquidez. O texto também destacou quais papéis concentraram volumes e ganhos no período e como a leitura setorial ajudou a explicar a dispersão de desempenho entre diferentes grupos de ações.
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