Dos notebooks aos servidores de IA: Por que Wall Street voltou a apostar na Dell

Dos notebooks aos servidores de IA: Por que Wall Street voltou a apostar na Dell
A Dell está de volta aos holofotes

​Todos conhecem a Dell como fabricante de monitores e computadores. Mas hoje, a empresa está cada vez mais associada à infraestrutura para inteligência artificial. A demanda por servidores de IA impulsionou o preço das ações e deu à Dell a chance de redefinir seu papel na indústria de tecnologia.

Este artigo foi traduzido do original. Leia a versão original do nosso correspondente aqui.

O crescimento incomum da Dell

As ações da Dell dispararam após a empresa divulgar um relatório trimestral com um dos melhores resultados dos últimos anos. No after-market, o papel subiu quase 40%, chegando a US$ 444 após fechar a US$ 317. Desde o início do ano, as ações da Dell já acumularam alta superior a 150%, segundo a CNBC.

No trimestre encerrado em 1º de maio, a receita da Dell cresceu 88%, atingindo US$ 43,8 bilhões. Os analistas esperavam cerca de US$ 35,4 bilhões.

O principal motor desse crescimento foram os servidores de IA. A receita com a venda desses equipamentos saltou 757%, chegando a US$ 16,1 bilhões no trimestre. A Dell também recebeu US$ 24,4 bilhões em pedidos para esse tipo de sistema.

Nesse contexto, a empresa revisou suas projeções para cima. Agora, a Dell espera cerca de US$ 60 bilhões em receita com servidores de IA no ano fiscal de 2027, ante previsão anterior de US$ 50 bilhões. A projeção de receita total subiu para US$ 165 bilhões-US$ 169 bilhões, enquanto antes a expectativa era de US$ 138 bilhões-US$ 142 bilhões.

A Dell também ganhou destaque pelo contexto político. Em fevereiro, Donald Trump comprou entre US$ 1 milhão e US$ 5 milhões em ações da empresa. Além disso, a Dell recebeu um contrato de US$ 9,7 bilhões do Pentágono, enquanto Michael e Susan Dell anunciaram anteriormente uma doação de US$ 6,25 bilhões para o Trump Accounts — contas de investimento para crianças americanas.

Dos computadores aos data centers

Esses fatores aumentaram a atenção sobre a Dell, mas não explicam totalmente a mudança na percepção do mercado sobre a empresa. Por muito tempo, a Dell foi considerada um dos símbolos da indústria de PCs. A empresa ficou conhecida por computadores pessoais, hardware corporativo e equipamentos de escritório.

Mas a Dell deixou há muito tempo o negócio de apenas fabricar notebooks e PCs. Em 2016, a empresa adquiriu a EMC, grande produtora de sistemas de armazenamento de dados e soluções de infraestrutura corporativa. Em 2018, a Dell voltou ao mercado público após alguns anos como empresa privada.

Agora, é a infraestrutura que dá o principal impulso à empresa. No último trimestre, a receita do Infrastructure Solutions Group, que inclui servidores, sistemas de armazenamento e outros equipamentos para data centers, cresceu 181%, chegando a US$ 29 bilhões. Para comparação, o Client Solutions Group, que inclui PCs, notebooks e acessórios, também cresceu, mas em ritmo bem menor — alta de 17%, para US$ 14,6 bilhões.

Por que a IA virou o novo motor de crescimento da Dell

O crescimento do negócio de infraestrutura da Dell está ligado à velocidade com que as empresas estão expandindo a capacidade para inteligência artificial. Os modelos precisam não só ser treinados, mas também rodar em produtos reais: chatbots, assistentes corporativos, sistemas de análise e serviços de automação. Isso exige servidores com processadores gráficos potentes, sistemas de armazenamento, equipamentos de rede e data centers.

A Dell se posicionou em uma das áreas que mais crescem no mercado. A empresa monta servidores de IA baseados em chips Nvidia e os fornece para clientes que precisam de sistemas prontos para cargas de trabalho pesadas. Entre os clientes da Dell estão CoreWeave, Honeywell, Samsung, provedores de neocloud, empresas e grandes companhias de IA.

Um exemplo recente é o acordo com a operadora de data centers IREN. Em 26 de maio, a empresa anunciou que compraria sistemas Nvidia Blackwell refrigerados a ar da Dell por cerca de US$ 1,6 bilhão. A IREN precisa dos equipamentos para expandir a capacidade de serviços de IA, e o acordo está ligado a um contrato de cinco anos já anunciado, no valor de US$ 3,4 bilhões com a Dell.

O novo papel da Dell na indústria de tecnologia

O boom da IA está mudando a forma como investidores enxergam não só os desenvolvedores de modelos, mas também as empresas que fornecem o “hardware” por trás do setor. Os investidores olham não só para OpenAI ou Anthropic, mas também para quem constrói a base física para esse crescimento: fabricantes de chips, fornecedores de memória, operadores de data centers e empresas de servidores.

A Dell não compete diretamente com ChatGPT, Claude ou Gemini. Seu papel é outro: a empresa fornece a infraestrutura sem a qual os serviços de IA não podem escalar. Quando empresas lançam chatbots, assistentes de IA, plataformas de análise ou ferramentas de automação, elas precisam de servidores, armazenamento e equipamentos para data centers.

Por isso, a Dell tem a chance de mudar seu papel na indústria de tecnologia. Antes, era vista principalmente como fabricante de computadores, notebooks e monitores. Agora, a empresa cada vez mais se posiciona como fornecedora de infraestrutura essencial para a economia de IA — e é exatamente por isso que o mercado passou a valorizá-la de forma diferente.

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