Portugal enfrenta pressão nos custos do cacau com disrupções logísticas e procura europeia mais fraca

Portugal enfrenta pressão nos custos do cacau com disrupções logísticas e procura europeia mais fraca
Pressão no cacau em Portugal

A volatilidade no mercado global do cacau está a aumentar a pressão sobre fabricantes e consumidores em Portugal, num contexto de custos de transporte mais altos e procura mais fraca na Europa. Embora os preços estejam abaixo do pico de 2025, continuam elevados em termos históricos, o que mantém a incerteza sobre margens, preços no retalho e abastecimento ao longo de 2026.

Destaques

  • Os futuros do cacau superam $3,365 por tonelada impulsionados pelo fecho parcial do Estreito de Ormuz, elevando custos logísticos para importadores portugueses.
  • A moagem de cacau na Europa recua 8% anual no primeiro trimestre de 2026, enquanto os gastos das famílias portuguesas com chocolate caem cerca de 4%.
  • O Regulamento da UE sobre Desflorestação entra em vigor em 30 de dezembro de 2026, exigindo certificação e rastreabilidade total do cacau importado, aumentando custos para operadores portugueses.

Choque logístico agrava custos de importação

Conforme noticiado pelo ThePortugalPost, os futuros do cacau voltam esta semana a superar 3.365 dólares por tonelada métrica, impulsionados por risco geopolítico, perturbações no transporte marítimo e sinais de enfraquecimento da procura industrial. Para Portugal, que depende sobretudo de fornecimentos da Costa do Marfim e do Gana, o efeito imediato é o aumento dos prémios de frete, dos seguros e de outros custos de importação.

O principal fator de pressão é o fecho parcial do Estreito de Ormuz, uma rota crítica para o comércio energético global. Embora o cacau não atravesse diretamente esse corredor, a perturbação afeta cadeias de fertilizantes, em especial fosfatos e compostos de azoto do Médio Oriente, além de elevar os custos do combustível marítimo e das rotas de transporte.

Para os produtores da África Ocidental, responsáveis por cerca de 60% da oferta mundial, isso traduz-se em custos agrícolas e logísticos mais elevados. Importadores portugueses enfrentam assim sobretaxas que se propagam pela cadeia de abastecimento, num momento em que o Irão indica que o estreito permanece aberto ao tráfego comercial apenas até ao fim de um cessar-fogo temporário com os Estados Unidos, previsto para terminar na quarta-feira.

Procura mais fraca e novas exigências na UE

A European Cocoa Association indica que a moagem de cacau na Europa cai 8% em termos anuais no primeiro trimestre de 2026, ainda que recupere 7% face ao trimestre anterior. Em Portugal, dados do INE citados no texto mostram uma descida de cerca de 4% nos gastos das famílias com chocolate e doces à base de cacau no mesmo período, acima da contração média de 2% a 3% na União Europeia.

Esse abrandamento da procura surge depois da forte subida dos preços em 2024 e no início de 2025, que levou fabricantes a reduzir o teor de cacau, reformular receitas e encolher embalagens. Para as empresas portuguesas, a pressão é agravada pela menor capacidade de cobertura de risco face aos grandes grupos internacionais e pela resistência da distribuição em repercutir totalmente os aumentos de custos no consumidor final.

A consultora Areté Iberia estima um excedente global de 222 mil toneladas na campanha 2025/26, com a produção a subir 3% e o consumo a avançar apenas 0,7%. Ainda assim, os preços mantêm-se elevados devido a fatores financeiros, incerteza macroeconómica e geopolítica e receios sobre a próxima colheita, segundo José Vicente Mateos, diretor da consultora.

Ao mesmo tempo, os operadores portugueses têm pela frente a entrada em vigor do Regulamento da UE sobre Desflorestação em 30 de dezembro de 2026. A nova regra exige rastreabilidade total e certificação do cacau importado, aumentando custos de auditoria, documentação e adaptação operacional, sobretudo para empresas de menor dimensão.

No curto prazo, o mercado continua dependente da evolução em Ormuz, dos próximos dados de moagem europeia e das perspetivas para a colheita principal na África Ocidental. Para Portugal, isso significa que a volatilidade do cacau deve continuar a influenciar custos de produção, preços no retalho e decisões de compra ao longo de 2026.

Na nossa matéria anterior sobre a escalada no Estreito de Ormuz, destacámos como o agravamento das tensões entre EUA e Irão levou a uma forte subida do petróleo e do gás, com o mercado a incorporar um prémio de risco elevado. Também analisámos o impacto do fecho da passagem no tráfego de navios-tanque e a incerteza em torno do cessar-fogo e das negociações, aumentando o risco de choques prolongados na energia e pressão inflacionista.

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