Portugal acelera plano para centros de dados e tenta destravar investimentos no setor

Portugal acelera plano para centros de dados e tenta destravar investimentos no setor
Investimento em centros de dados

O governo português avança com um roteiro nacional para centros de dados num momento em que o país tenta transformar interesse de investidores em projetos executáveis. O teste central está na capacidade de reduzir entraves no licenciamento, garantir energia e disponibilizar terrenos viáveis antes que operadores escolham outros mercados europeus.

Destaques

  • O Plano Nacional de Centros de Dados aprovado em 19 de março prevê 15 medidas para acelerar licenciamento, garantir energia e otimizar terrenos, com foco em execução até 2027.
  • Investimentos anunciados incluem REN com €1,5-1,7 mil milhões até 2027, EDP com €12 mil milhões em renováveis e Start Campus em Sines com €8,5 mil milhões e 1.200 MW operacionais em 2026.
  • O governo projeta impacto no PIB entre €56 mil milhões e €86 mil milhões até 2040, mas atrasos em licenciamento e infraestrutura podem redirecionar investimentos para Irlanda, Países Baixos e Espanha.

Roteiro oficial mira licenciamento, energia e terrenos

Como noticiou o ThePortugalPost, o Conselho de Ministros aprovou em 19 de março o Plano Nacional de Centros de Dados, um pacote de 15 medidas para reduzir fricções burocráticas, reforçar o acesso à energia e posicionar Portugal como plataforma competitiva de infraestrutura digital na Europa. O plano concentra-se em quatro eixos, governação e simplificação, energia e zonas pré-preparadas, posicionamento de mercado e financiamento, e integração territorial com exigências de benefícios locais e regras para reutilização dos terrenos no fim de vida dos projetos.

No modelo proposto, a AICEP passa a atuar como interlocutor único para investidores e a coordenar entidades públicas, enquanto o Estado prevê identificar áreas industriais com ordenamento aprovado, infraestrutura básica e ligações à rede previamente confirmadas em articulação com a REN. O plano também abre espaço para participação direta do Banco Português de Fomento em projetos considerados estratégicos, numa tentativa de reduzir risco para capital privado e sinalizar compromisso público com o setor.

Executivos e consultores do mercado, porém, defendem que a principal fragilidade continua na execução. Carlos Paulino, da Equinix Portugal, afirma que o problema começa antes do pedido formal de licença, porque muitos terrenos na área metropolitana de Lisboa enfrentam limitações jurídicas, partilhas familiares por resolver ou falta de enquadramento industrial adequado. María da Cunha e Menezes, da JLL Portugal, acrescenta que um terreno apto para um centro de dados exige simultaneamente acesso à rede, conectividade robusta, compatibilidade urbanística e ausência de riscos ambientais relevantes, o que estreita fortemente a oferta disponível.

Corrida europeia aumenta pressão sobre 2026 e 2027

O fator energia surge como outra condição decisiva para a expansão do setor. A REN prevê investir entre 1,5 mil milhões e 1,7 mil milhões de euros até 2027, com 611 milhões já aprovados para infraestrutura em Sines, incluindo nova capacidade de ligação de 5,9 GW até o fim de outubro de 2026. Em paralelo, a EDP executa um programa de 12 mil milhões de euros, com foco em renováveis, armazenamento e reforço de rede, antecipando maior procura vinda da eletrificação e dos centros de dados.

Projetos já em curso sustentam a ambição portuguesa. O Start Campus, em Sines, concentra 8,5 mil milhões de euros e 1.200 MW de capacidade, com a primeira fase operacional no início de 2026 e a segunda prevista para 2027. A Equinix opera duas instalações em Prior Velho e planeia uma terceira para 2027, enquanto Merlin/Edged desenvolve um campus de 180 MW em Castanheira do Ribatejo e a Digital Realty prepara operações em Lisboa para 2027.

O governo estima um impacto acumulado no PIB entre 56 mil milhões e 86 mil milhões de euros até 2040, além de cerca de 3.300 empregos diretos até 2031 e contributo positivo de 8 mil milhões para a balança comercial. Ainda assim, o país disputa operadores hyperscale com Irlanda, Países Baixos e Espanha, num mercado em que atrasos de licenciamento, ligações elétricas lentas ou falta de solo disponível podem desviar capital para jurisdições com execução já comprovada.

Para o mercado, a janela decisiva abre-se em 2026 e 2027. Se o plano sair do papel com prazos previsíveis, energia assegurada e terrenos efetivamente preparados, Portugal pode consolidar-se entre os principais polos europeus de centros de dados; se a execução falhar, a atual vaga de investimento pode perder força antes de ganhar escala.

Na nossa publicação anterior, analisámos o debate em Portugal sobre a reavaliação do potencial de petróleo e gás offshore, num momento em que a volatilidade internacional volta a pressionar os custos energéticos. Explicámos que a Lei de Bases do Clima de 2022 trava novas concessões e que, mesmo com indícios geológicos e reservas estratégicas, o país continua dependente de importações e sem alívio de curto prazo nas faturas, reforçando a importância de uma rede resiliente e de fontes alternativas.

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