Portugal enfrenta custos anuais de 5,3 mil milhões de euros com a crise de saúde mental

Portugal enfrenta custos anuais de 5,3 mil milhões de euros com a crise de saúde mental
Crise mental gera custos elevados

A pressão da saúde mental está a agravar-se como um problema económico e laboral em Portugal, com perdas anuais estimadas em 5,3 mil milhões de euros ligadas ao stress no trabalho e a perturbações psicológicas. No conjunto da Europa, os custos diretos para os sistemas de saúde ascendem a 76 mil milhões de euros por ano, enquanto a falta de acesso a cuidados mantém o impacto social e produtivo em níveis elevados.

Destaques

  • Portugal enfrenta custos anuais de €5,3 mil milhões devido à crise de saúde mental, com 23% da população afetada e 60% sem acesso a cuidados.
  • O presentismo nas empresas portuguesas custa €3,5 mil milhões por ano, superando o absentismo de €1,8 mil milhões registado em 2022, reduzindo em até 1,4% as receitas empresariais.
  • O Plano de Recuperação e Resiliência prevê €760 mil para novos serviços comunitários e 500 vagas de internamento até março de 2026, enquanto a UE investiu €1,23 mil milhões em 2023 em iniciativas de saúde mental.

Custos económicos e falhas no acesso aos cuidados

Como noticiou o The Portugal Post, citando um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, divulgado no fim de abril, Portugal surge como o país da União Europeia com maior prevalência de sintomas psicológicos, com 23% da população afetada, enquanto 60% dessas pessoas continuam sem acesso a cuidados. O mesmo levantamento indica que uma em cada cinco pessoas na Europa vive com uma perturbação mental diagnosticável, num quadro que permanece subestimado devido ao estigma e à subnotificação.

O impacto nas empresas portuguesas vai além das baixas médicas. Cada trabalhador falta em média oito dias por ano devido a doença psicológica, mas o peso maior recai no presentismo, quando o trabalhador comparece com capacidade reduzida, fenómeno que custa 3,5 mil milhões de euros por ano, face a 1,8 mil milhões de euros em absentismo registados em 2022.

No total, a perturbação da saúde mental retira até 1,4% das receitas empresariais em Portugal. Na União Europeia, a OCDE estima que a quebra de produtividade equivale à perda de 2,4 milhões de trabalhadores a tempo inteiro e a um arrastamento de cerca de 1,7% do PIB regional por ano.

Pressão sobre o SNS e resposta política europeia

O sistema de saúde português continua sob pressão, sobretudo fora dos grandes centros urbanos. Psiquiatras e psicólogos concentram-se em Lisboa e no Porto, deixando zonas rurais e insulares com tempos de espera de vários meses ou sem resposta adequada, apesar de o Plano de Recuperação e Resiliência prever 760 mil euros para concluir a transição para serviços comunitários de saúde mental e criar novas unidades de internamento, com mais 500 vagas de cuidados esperadas até março de 2026.

O relatório também destaca que cerca de 25% dos custos em saúde mental resultam do agravamento de doenças físicas coexistentes, o que eleva internamentos e despesa hospitalar. Ao mesmo tempo, a Comissão Europeia mantém esta área como prioridade transversal, depois de ter mobilizado 1,23 mil milhões de euros em 2023 para 20 iniciativas, enquanto a campanha Healthy Workplaces 2026-2028, liderada pela EU-OSHA, visa os riscos psicossociais no trabalho.

Entre os grupos mais vulneráveis estão jovens, mulheres e profissionais de saúde. Na Europa, quase 9 milhões de adolescentes entre os 10 e os 19 anos vivem com problemas de saúde mental diagnosticados, e uma investigação da Organização Mundial da Saúde para a Europa, em 2025, conclui que um em cada três profissionais de saúde sofre de depressão ou ansiedade. Em Portugal, onde 12% dos adultos vivem com depressão crónica e o consumo de ansiolíticos lidera entre os países da OCDE, a combinação entre precariedade económica, estigma e oferta insuficiente de cuidados continua a ampliar o impacto humano e financeiro.

Na nossa publicação anterior sobre o excedente orçamental do primeiro trimestre, explicámos que as contas públicas fecharam com saldo positivo de 209 milhões de euros, mas sob pressão de um abrandamento da receita fiscal e de medidas extraordinárias. O texto destacou o peso de pagamentos excecionais ao SNS e de apoios a empresas afetadas por tempestades, fatores que condicionaram o resultado e evidenciaram como encargos na saúde e respostas de política pública podem influenciar diretamente a execução orçamental.

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