Portugal acelera aposta em IA, mas até 1 milhão de empregos enfrentam risco de substituição

Portugal acelera aposta em IA, mas até 1 milhão de empregos enfrentam risco de substituição
IA ameaça empregos em Portugal

Portugal vê na inteligência artificial uma via para reduzir a dependência do turismo e atacar décadas de fraca produtividade, apoiado por mais de 1 mil milhões de euros em estratégias e investimento associados. Ao mesmo tempo, a transição expõe quase 29% dos trabalhadores do setor privado, cerca de 900 mil a 1 milhão de pessoas, a um risco elevado de substituição à medida que a automação avança.

Destaques

  • Portugal comprometeu 1 mil milhão de euros para IA e digitalização até 2030, incluindo 350 milhões de euros entre 2025-2026 e 19,3 milhões para supercomputação.
  • Estima-se que a IA generativa possa acrescentar 2,7 pontos percentuais ao PIB anual português, gerando 18 mil milhões a 22 mil milhões de euros por ano segundo a McKinsey.
  • Quase 29% dos empregos no setor privado, entre 800 mil e 1 milhão de postos, enfrentam risco elevado de substituição por IA, alerta a Fundação Francisco Manuel dos Santos.

Investimento, infraestrutura e metas até 2030

The Portugal Post refere que a Agenda Nacional de Inteligência Artificial prevê mais de 400 milhões de euros até 2030, dos quais 350 milhões estão destinados a 2025-2026, enquanto a Estratégia Digital Nacional coordena 49 ações ligadas a adoção de cloud, digitalização da administração pública e apoio às PME. O texto indica ainda que, somando a ANIA e o Pacto para as Competências Digitais, o investimento comprometido atinge 1 mil milhão de euros.

A estratégia distribui verbas por infraestrutura e dados, inovação e adoção, talento e competências, e responsabilidade e ética. Entre as medidas detalhadas estão 19,3 milhões de euros para projetos de supercomputação, como o Deucalion e a fábrica de IA MareNostrum 5, além de 25 milhões de euros para digitalizar processos da administração pública, incluindo contratos, faturação, recrutamento e licenciamento.

Na infraestrutura, Portugal procura afirmar-se como polo europeu de centros de dados, com capacidade anunciada a subir de 373 MW para mais de 2,6 GW. Lisboa concentra 1.389 MW e acolhe projetos como o da Merlin Edged, com até 1.300 MW e primeira fase de 80 MW prevista para o quarto trimestre de 2027, a expansão da AtlasEdge para 30 MW e a entrada da Digital Realty em Carcavelos com uma unidade de 2,4 MW operacional até 2027.

O Plano Nacional de Data Centers para 2026-2027 estabelece 15 medidas prioritárias para acelerar licenças e preparar localizações pré-zonadas, enquanto o Plano Nacional de Cloud Soberana, a concluir em 2030 via IP Telecom, pretende reforçar o controlo estatal sobre dados críticos e gerar poupanças superiores a 30 milhões de euros. O hub de telecomunicações da Google nos Açores e a meta de cobertura 5G em 100% do território reforçam também a base digital para operações intensivas em computação.

Produtividade, emprego e desequilíbrios regionais

A aposta em IA surge num contexto em que a produtividade por trabalhador em Portugal se fixa em 48 mil euros, 28% abaixo da média da União Europeia de 74 mil euros, segundo os dados citados no texto. Apesar dos ganhos trazidos pelo turismo em investimento e emprego, a economia continua concentrada em setores de baixo valor acrescentado, o que limita salários e competitividade.

As projeções económicas apontadas no texto sugerem potencial relevante caso a adoção avance com rapidez. A McKinsey estima que a IA generativa pode acrescentar 2,7 pontos percentuais ao crescimento anual do PIB português, o equivalente a 18 mil milhões a 22 mil milhões de euros por ano, enquanto a PwC calcula um impacto de 11,5% no PIB do sul da Europa até 2030.

O efeito, porém, não é uniforme no mercado de trabalho. Um estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, citado no texto, alerta que quase 29% dos empregos do setor privado enfrentam risco elevado de substituição, afetando funções como empregados de mesa, operadores de máquinas, assistentes administrativos, caixas e trabalhadores logísticos, ao passo que profissões em educação, vendas especializadas, marketing e finanças tendem a beneficiar de complementaridade com IA.

O artigo destaca ainda um risco de concentração geográfica. Dos 55 polos tecnológicos lançados em 2025, 29 localizam-se em Lisboa e 16 no Porto e Norte-Centro, deixando apenas 10 distribuídos pelo Algarve, Alentejo, Centro e interior, o que pode ampliar assimetrias regionais se a requalificação e a conectividade não acompanharem o investimento.

Entre as respostas previstas estão apoios à formação e reconversão, como o Impulso Jovens STEAM, o Impulso Adultos, o Qualifica Indústria e o INCoDe.2030, com metas nacionais de 80% da população com competências digitais básicas e 90% das PME com digitalização básica até 2030. Para as pequenas empresas, a Linha IA nas PME oferece subvenções não reembolsáveis até 300 mil euros para projetos iniciados entre 1 de janeiro de 2025 e 30 de junho de 2026.

Na nossa publicação, analisámos o pacote de grandes investimentos em Sines, que ultrapassa 25 mil milhões de euros e inclui projetos industriais e de transição energética, além da expansão de data centers voltados para cargas de trabalho de inteligência artificial. Também destacámos as projeções para salários e crescimento até 2026, bem como os riscos associados a energia e juros — e a pressão que este ciclo de investimento pode exercer sobre infraestruturas e habitação locais.

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