Investimento imobiliário em Portugal acelera, enquanto escassez de habitação pressiona mercado
Portugal atrai 915 milhões de euros em investimento imobiliário no primeiro trimestre de 2026, num avanço de 34% face ao mesmo período do ano anterior, mesmo com a contração do mercado mais amplo da Zona Euro. O reforço do capital concentra-se em hotelaria, retalho e centros de dados, enquanto a oferta residencial continua limitada e agrava a pressão sobre rendas e preços da habitação.
Destaques
- Investimento imobiliário em Portugal no primeiro trimestre destaca hotelaria com €336 milhões (37% do total) e retalho com €345 milhões, ambos impulsionados por localizações prime.
- Oferta residencial para venda cai 8,6% entre fevereiro e abril de 2026, com procura subindo 150% face ao ano anterior e rendas centrais em Lisboa atingindo €1.500 mensais ou mais.
- Entraves administrativos e preferência por ativos comerciais redirecionam capital institucional, enquanto medidas governamentais apontam resultados tangíveis em habitação apenas entre 2029 e 2030.
Fluxos de capital favorecem ativos comerciais
ThePortugalPost refere que a hotelaria absorve 336 milhões de euros no primeiro trimestre, o equivalente a 37% do total, com destaque para a compra do Penha Longa Resort pela L Catterton à The Carlyle Group, numa operação avaliada entre 120 milhões e 140 milhões de euros. O retalho capta 345 milhões de euros, sobretudo em localizações prime de Lisboa e Porto, beneficiando de oferta limitada, tráfego elevado e rendimentos estáveis entre 4% e 5%.
Os centros de dados representam 128 milhões de euros, ou 14% do investimento total, sinalizando uma expansão para ativos ligados à economia digital. O texto aponta ainda para maior valorização de imóveis com padrões climáticos da União Europeia, sistemas de energia renovável e infraestruturas de medição inteligente, num contexto em que o enquadramento do Banco Central Europeu sobre risco climático orienta capital institucional para ativos com menor exposição regulatória.
Em contrapartida, a construção residencial, os modelos build-to-rent e a habitação acessível continuam com presença reduzida nas carteiras dos grandes investidores. Custos de construção elevados, exigências regulatórias e retornos menos previsíveis tornam estes segmentos menos competitivos do que hotéis e ativos comerciais de referência.
Escassez habitacional amplia impacto económico e social
Entre fevereiro e abril de 2026, o número de casas anunciadas para venda cai 8,6% em termos nacionais, afetando 63% dos municípios, enquanto a procura por habitação sobe 150% face aos mesmos meses de 2025. O défice de oferta residencial é estimado entre 150 mil e 200 mil casas, com rendas de apartamentos T2 no centro de Lisboa a atingirem 1.500 euros mensais ou mais, tendência que também se replica no Porto.O Ministério das Finanças e as administrações locais avançam com medidas como reduções do IVA na construção nova, licenciamento mais rápido e mecanismos para mobilizar imóveis presos em heranças familiares. Ainda assim, as previsões do setor indicam que resultados tangíveis, com novas unidades concluídas e ocupadas, só deverão surgir entre 2029 e 2030.
No contexto ibérico e europeu, Portugal mantém atratividade para investidores por combinar inflação próxima de 2%, estabilidade política e perspetivas de crescimento económico. Porém, essa vantagem para o capital internacional contrasta com dificuldades crescentes para residentes, trabalhadores qualificados e estrangeiros que procuram instalar-se no país, sobretudo em Lisboa e Porto, onde os custos de habitação já rivalizam com outras cidades europeias sem o mesmo nível salarial.
O texto assinala ainda que entraves administrativos continuam a prolongar prazos de execução, especialmente em projetos residenciais, reforçando o desvio do investimento para classes de ativos com aprovação mais simples, como logística, centros de dados e imobiliário comercial. Sem redirecionamento mais claro de capital para habitação, espaços flexíveis e segmentos acessíveis, o atual ciclo de investimento tende a aprofundar a pressão sobre o mercado residencial.
Na nossa publicação, acompanhámos o nono pedido de pagamento do PRR apresentado por Portugal a Bruxelas e a respetiva reprogramação do plano para manter o calendário de execução até agosto de 2026. Explicámos que verbas foram redistribuídas para projetos com maior probabilidade de conclusão dentro do prazo, enquanto iniciativas pressionadas pelo calendário tenderiam a transitar para financiamento nacional ou outros instrumentos europeus, para evitar perda de fundos.
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