Custos da habitação agravam taxa de pobreza em Portugal, indica análise da EAPN

Custos da habitação agravam taxa de pobreza em Portugal, indica análise da EAPN
Habitação agrava pobreza

A pressão dos custos da habitação está a ampliar de forma significativa a vulnerabilidade económica em Portugal, ao elevar a taxa de pobreza muito acima do indicador oficial. A diferença mostra que rendas e prestações da casa estão a consumir uma parcela crescente do rendimento disponível das famílias, sobretudo nos centros urbanos.

Destaques

  • A EAPN Portugal aponta que a taxa de pobreza, descontando custos de habitação, atinge 27,6% em 2024, cerca de três milhões de pessoas.
  • Em dezembro de 2024, o preço médio de venda de habitação em Portugal sobe 10,4% para 2.827 euros/m², com Lisboa a 5.932 euros/m² em janeiro de 2026.
  • A Comissão Europeia indica uma sobreavaliação de 35% no mercado habitacional português, com medidas governamentais ainda insuficientes para travar a crise de acessibilidade.

Impacto da habitação nos rendimentos familiares

Segundo The Portugal Post, a EAPN Portugal relata na sua análise divulgada este mês que a taxa de pobreza em Portugal sobe de 16,6% para 27,6% quando os custos com habitação são descontados do rendimento disponível, o que corresponde a quase três milhões de pessoas, cerca de mais um milhão face às estatísticas oficiais.

Os dados oficiais compilados pelo Eurostat através do EU-SILC medem o risco de pobreza com base no rendimento mediano, mas não incluem as despesas com habitação, uma metodologia que a rede considera insuficiente para retratar a pressão económica real. Em 2024, o INE fixa a taxa oficial de risco de pobreza em 16,6%, equivalente a cerca de 1,76 milhões de pessoas, enquanto a diferença entre a taxa de referência e a taxa após custos de habitação atinge 66%.

O peso da habitação também se reflete na sobrecarga financeira das famílias. Em 2024, 25,9% das pessoas em risco de pobreza gastam pelo menos 40% do rendimento disponível em habitação, e entre os agregados pobres essa percentagem sobe para cerca de 33,4%, face a 6,6% entre as famílias não pobres.

Cáritas Portuguesa reforça este quadro num relatório de março de 2026, ao indicar que mais de um milhão de pessoas viveram em privação material e social durante 2025, com 18,6% da população em risco de pobreza ou exclusão social.

Preços, medidas públicas e pressão estrutural

Nas áreas urbanas, a escalada dos preços acentua a perda de poder de compra. Lisboa surge como a sétima capital europeia mais cara para compra de habitação em janeiro de 2026, com um preço médio de 5.932 euros por metro quadrado, enquanto os preços de venda no país aumentam 10,4% em dezembro de 2024 em termos homólogos, para um máximo de 2.827 euros por metro quadrado. Entre o terceiro trimestre de 2024 e o terceiro trimestre de 2025, Portugal regista a segunda maior subida dos preços da habitação na Europa, com um avanço de 17,7%.

O Governo tem respondido com incentivos fiscais e alterações regulatórias no âmbito da estratégia Construir Portugal. Entre as medidas estão o aumento das deduções de IRS para inquilinos, a redução do IVA na construção e reabilitação em certas condições, benefícios fiscais para senhorios com rendas moderadas, revisão do enquadramento legal do urbanismo e incentivos ao arrendamento acessível e a projetos build-to-rent.

Ainda assim, persistem dúvidas sobre a eficácia destas medidas para travar a crise de acessibilidade. A Comissão Europeia e o Governo assinalam uma sobreavaliação de 35% no mercado habitacional português, a mais elevada da zona euro, enquanto o rácio entre preços da habitação e rendimento das famílias está agora 20% acima do registado há uma década. Apesar de a taxa portuguesa de sobrecarga com habitação na população geral ficar abaixo da média da União Europeia em 2025, o país apresenta uma das maiores subidas anuais e continua a enfrentar riscos acrescidos para a coesão social e para a redução da pobreza.

Na nossa publicação, acompanhámos a escalada das avaliações bancárias dos imóveis em Portugal e o agravamento da acessibilidade à habitação à entrada de 2026, num cenário de pressão alargada a várias regiões. O artigo mostrou como o esforço teórico da prestação pode consumir uma fatia muito elevada do rendimento familiar (com valores extremos em Lisboa e Porto) e descreveu as medidas públicas em curso, sublinhando que os efeitos no alívio para as famílias tendem a demorar.

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