Portugal agrava custo da dívida em leilão de obrigações sob pressão geopolítica

Portugal agrava custo da dívida em leilão de obrigações sob pressão geopolítica
Portugal agrava custo da dívida

Portugal emitiu 1.078 milhões de euros num leilão duplo de obrigações do Tesouro a nove e 19 anos, ficando abaixo do montante indicativo máximo num contexto de maior tensão nos mercados. A operação decorre num momento em que o conflito no Médio Oriente pressiona as perspetivas de inflação e alimenta expectativas de nova subida de juros pelo Banco Central Europeu.

Destaques

  • Portugal emitiu 636 milhões de euros em obrigações 2035 a 3,342% e 442 milhões em obrigações 2045 a 3,894%, ambos acima dos leilões anteriores.
  • O apetite do mercado manteve-se forte, com a procura superando a oferta em 2,04 vezes (9 anos) e 2,33 vezes (19 anos), apesar do custo mais alto.
  • A subida das taxas reflete pressões geopolíticas e expectativas de aumento da taxa do BCE para 2,25% em junho, impulsionando as yields na Zona Euro.

Detalhes do leilão e evolução das taxas

Como noticiou o Jornal de Negócios, o IGCP realizou esta quarta-feira um leilão de dívida com vencimentos em 12 de outubro de 2035 e 15 de fevereiro de 2045, colocando 636 milhões de euros na linha mais curta a uma taxa de 3,342% e 442 milhões de euros na mais longa a 3,894%. O montante total emitido ficou abaixo do teto indicativo de 1.250 milhões de euros.

Na obrigação com vencimento em 2035, os juros subiram face ao leilão de março, quando Portugal tinha emitido 731 milhões de euros à taxa de 3,175%. Já na maturidade de 2045, a comparação é com maio do ano passado, altura em que o país se financiou a 3,753%, abaixo do custo agora registado.

A procura, ainda assim, mantém-se robusta. Na dívida a nove anos, superou a oferta em 2,04 vezes, acima das 1,89 vezes do último leilão comparável, enquanto nos títulos a 19 anos a procura foi 2,33 vezes superior à oferta.

Impacto do contexto externo no financiamento

Filipe Silva, diretor de investimentos do Banco Carregosa, afirma que o aumento das taxas no leilão reflete o ambiente geopolítico atual, marcado pelos avanços e recuos do conflito com o Irão. Segundo o responsável, a tensão no Médio Oriente introduz maior instabilidade no mercado de dívida e altera as perspetivas de inflação no médio prazo.

Esse enquadramento reforça a expectativa de uma subida de 25 pontos-base na reunião de junho do Banco Central Europeu, que decorre sob liderança de Christine Lagarde e termina esta quinta-feira. O mercado espera que a taxa de referência seja elevada para 2,25%.

No mercado secundário, as yields da dívida soberana da Zona Euro seguem em alta, com as Bunds alemãs a 10 anos nos 3,062% e as obrigações portuguesas com a mesma maturidade nos 3,444%. No final de maio, Portugal já tinha emitido três mil milhões de euros numa venda sindicada a 20 anos, com cupão de 3,875% e yield de 3,913%, beneficiando então de procura recorde.

A pressão das yields dos Treasuries de curto prazo sobre o Fed foi o foco do nosso artigo anterior, com os rendimentos a dois anos a subirem para perto de 4,15% e os investidores a reavaliarem o risco de inflação e de sobreaquecimento da economia. Nesse contexto, o mercado passou a admitir a hipótese de novas subidas de juros já a partir de outubro e reacendeu o debate sobre a “taxa neutra”, sugerindo que as condições financeiras podem não estar tão restritivas quanto se pensava. A leitura era a de que rendimentos mais altos estão a apertar as condições, mas sem afastar totalmente a possibilidade de novas altas se os dados continuarem fortes.

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