A aproximação do novo concurso para o transporte aéreo interilhas nos Açores intensifica a pressão em Pico por mais frequências e maior capacidade para responder ao crescimento do turismo e às necessidades dos residentes. Em causa estão uma ligação diária a Lisboa e serviços de inverno mais regulares para Terceira e Ponta Delgada, num momento em que a infraestrutura da ilha continua limitada.
Destaques
- O Governo Regional dos Açores abriu o concurso para serviços aéreos interilhas 2027–2031 com preço base de 249,75 milhões de euros, acima dos 140 milhões de 2021.
- A compensação anual das obrigações de serviço público à SATA sobe de 13,8 milhões de euros em 2023 para 24,4 milhões em 2024 e 31,5 milhões em 2025.
- O grupo GAPix propõe aumentar para sete os voos semanais Lisboa–Pico e garantir ligações diárias no inverno, pressionando capacidade sem expansão da pista até 2027.
Propostas de Pico para o concurso aéreo
Como noticiou o ThePortugalPost, o Grupo do Aeroporto do Pico, GAPix, apresentou propostas formais ao Governo dos Açores para recalibrar a oferta aérea da ilha, numa fase em que a maior concessão regional de aviação está a ser renovada para o período 2027-2031.Entre as medidas defendidas estão mais uma rotação semanal entre Lisboa e Pico, passando de seis para sete voos, ligações diárias no inverno entre Pico e Terceira e entre Pico e Ponta Delgada, além de um reforço flexível da capacidade no verão, sobretudo em julho e agosto. O grupo argumenta que estas mudanças são necessárias para aliviar a pressão sobre tarifas, garantir acesso regular a serviços de saúde e emprego e evitar que residentes percam lugares para a procura turística.
O dossiê ganha peso porque a pista do Pico, com 1.400 metros, mantém as limitações atuais e uma expansão física não deverá chegar antes de 2027. Até lá, a margem de crescimento depende sobretudo da frequência das operações e não da dimensão das aeronaves.
O porta-voz do GAPix, Bruno Rodrigues, critica a falta de ajustamentos nas obrigações de serviço público face à procura real. Quando o modelo foi renovado em 2021, o contrato quase não mudou e, na revisão publicada em maio de 2026, a única novidade relevante foi a rota Terceira-Funchal, mantendo-se praticamente intacta a arquitetura anterior.
Impacto financeiro e pressão sobre a rede
Em 11 de junho, o Governo Regional dos Açores abriu formalmente o concurso para os serviços aéreos interilhas entre 2027 e 2031 com um preço base de 249,75 milhões de euros, acima dos 140 milhões do contrato assinado com a SATA Air Açores em 2021, que termina em 31 de outubro de 2026. O aumento reflete a subida dos custos operacionais e o crescimento da procura, num contexto em que o número de passageiros terá avançado cerca de 82% desde a última atualização das obrigações de serviço público.A pressão financeira sobre a operadora também aumenta. Em fevereiro de 2026, o Tesouro dos Açores autorizou um pagamento suplementar de 42,8 milhões de euros à SATA para sustentar a operação da rede, enquanto a compensação anual das obrigações de serviço público sobe de 13,8 milhões de euros em 2023 para 24,4 milhões em 2024 e 31,5 milhões em 2025. A unidade interilhas da SATA regista um prejuízo de 6,4 milhões de euros em 2025, embora inferior ao défice de 11,6 milhões de 2024.
O concurso recebe propostas até 11 de agosto de 2026 e a avaliação decorre durante o outono, com decisão esperada até ao fim do ano. Os critérios combinam valor do subsídio exigido, com peso de 55%, frequência semanal de voos, capacidade semanal de lugares e capacidade de carga, o que deverá determinar até que ponto Pico consegue assegurar a expansão das ligações que reclama sem agravar a pressão orçamental da região.
Na nossa publicação, acompanhámos a pressão de Portugal junto da Comissão Europeia para reforçar o financiamento da UE à Madeira e aos Açores no próximo quadro orçamental de 2028-2034, com um aumento proposto de 700 para 900 milhões de euros. Explicámos que a disputa por verbas, num contexto de maior prioridade europeia à defesa e à autonomia estratégica, pode reduzir fundos de coesão essenciais para infraestruturas e para mitigar os custos permanentes da insularidade. Este enquadramento ajuda a perceber por que razão temas como acessibilidades e serviços públicos nos Açores ganham peso quando se discutem modelos de financiamento e obrigações de serviço.
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