Amadora agrava demolições imediatas em bairros precários com aviso de 48 horas
A Câmara Municipal da Amadora está a aplicar uma ordem que permite demolir de imediato novas construções ilegais e ampliações em bairros vulneráveis do concelho. A medida, já em execução em zonas como Cova da Moura e Estrada Militar, está a aumentar a pressão sobre famílias em habitação informal e a suscitar dúvidas legais sobre realojamento e proteção habitacional.
Destaques
- Despacho da Câmara da Amadora de 3 de junho de 2026 permite demolição imediata de novas construções ilegais em bairros precários, com exceção de estruturas ocupadas sujeitas a aviso de 48 horas.
- Famílias afetadas terão apenas dois dias úteis para desocupar e retirar bens, com advogados alertando para potenciais violações da Lei de Bases da Habitação e insuficientes garantias de realojamento.
- Em junho de 2026, abrem candidaturas para 48 apartamentos sustentáveis no Cerrado da Mira, mas critérios como três anos de residência podem excluir parte dos agregados mais vulneráveis.
Regime municipal acelera demolições
Como noticiou o ThePortugalPost.com, o despacho aprovado pelo executivo municipal em 3 de junho de 2026 autoriza a demolição imediata de "novas construções ilegais" e de "ampliações ilegais a edifícios existentes" em áreas classificadas como precárias, degradadas ou de génese informal.Os editais já foram afixados em bairros como Estrada Militar, na Mina de Água, e Cova da Moura. O texto dispensa notificação prévia aos responsáveis pela obra e invoca a necessidade urgente de travar a proliferação destas construções. A exceção prevista aplica-se apenas aos casos em que as estruturas estejam ocupadas ou contenham bens, situação em que o município promete um aviso de 48 horas e medidas de apoio social.
Patrícia Bastos, advogada do movimento Vida Justa, afirma que o edital não esclarece se essa ocupação corresponde a habitação permanente ou apenas a anexos com objetos guardados. Segundo a jurista, essa distinção é central porque a lei portuguesa trata uma casa ocupada de forma diferente de uma estrutura vazia ou de apoio agrícola, sobretudo quando estão em causa famílias vulneráveis.
A metodologia publicada online em 9 de junho dá às equipas de fiscalização e à Polícia Municipal poderes para identificar e sinalizar construções para demolição sem cartas individualizadas. Na prática, residentes afetados poderão ter apenas dois dias úteis para sair e retirar pertences, embora o Vida Justa diga ter documentado em 2025 situações em que os prazos foram mais curtos do que o legalmente exigido.
Pressão social e impacto no realojamento
A autarquia, liderada pelo presidente socialista Vítor Ferreira, sustenta que todos os procedimentos de apoio social serão salvaguardados e que as famílias serão encaminhadas para soluções alternativas. Ainda assim, o município não detalha que tipo de resposta será disponibilizada nem se essa resposta inclui realojamento permanente.Advogados e ativistas da habitação defendem que demolir uma casa ocupada equivale, na prática, a um despejo e deve obedecer às garantias previstas na Lei de Bases da Habitação, incluindo solução habitacional alternativa para agregados vulneráveis. A Câmara contrapõe que aceitar novas ilegalidades compromete décadas de investimento em requalificação urbana e no Programa Especial de Realojamento, além de violar um princípio de equidade perante quem cumpre as regras de construção.
O concelho dispõe de programas oficiais de realojamento, mas a capacidade continua limitada face à procura. Em junho de 2026 abriram candidaturas para 48 apartamentos sustentáveis no Cerrado da Mira, com rendas reduzidas limitadas a 35% do rendimento do agregado, mas os critérios de acesso, incluindo três anos de residência ou trabalho na Amadora, podem excluir parte das famílias em situação mais precária.
O receio é reforçado pelo precedente de julho de 2025, quando, segundo o Vida Justa, equipas municipais desmontaram 22 estruturas ilegais no antigo bairro de Santa Filomena com escasso aviso prévio. As demolições retomam agora em 2026, com maquinaria a chegar esta semana ao Alto da Cova da Moura, enquanto o movimento faz um levantamento das novas construções para identificar agregados em risco imediato.
No pano de fundo está uma crise habitacional mais ampla na Amadora e em Loures, onde bairros informais criados há décadas por famílias migrantes continuam entre a tolerância administrativa e a pressão para erradicação. Para os moradores, a recomendação dos defensores é reunir provas de habitação contínua, como fotografias, registos escolares e documentos médicos, para sustentar eventuais recursos administrativos ou pedidos urgentes de suspensão das demolições.
Na nossa publicação, analisámos a subida da taxa de vagas de emprego em Portugal para 1,6% no primeiro trimestre de 2026, num contexto em que muitos países da UE registaram recuos. O texto destacou que o país foi dos poucos a melhorar neste indicador, reforçando sinais de procura por trabalhadores e as diferenças face à média europeia. Também enquadrámos como a evolução do mercado laboral se cruza com pressões salariais, incluindo o efeito dos aumentos do salário mínimo na compressão salarial e na retenção de talento.
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