Taxas da habitação em Portugal entram em fase mista com subida da Euribor a 6 e 12 meses
Os custos do crédito à habitação em Portugal enfrentam um novo período de movimentos divergentes nas taxas Euribor, com impacto desigual nas prestações das famílias. A referência a seis meses ganha especial relevância porque indexa quase 40% dos empréstimos de taxa variável para habitação própria permanente no país.
Destaques
- A Euribor a seis meses subiu para 2,622% e a 12 meses para 2,789%, afetando diretamente 39,56% e 31,53% dos contratos de habitação em Portugal, respetivamente.
- O Banco Central Europeu elevou as três taxas diretoras em 0,25 pontos percentuais em 12 de junho, entrando em vigor a partir de 17 de junho, com impacto imediato nas prestações.
- Com a inflação prevista pelo BCE para 2026 revista para 3,0% e o crescimento da zona euro para 0,8%, persiste pressão sobre as prestações e planeamento financeiro das famílias.
Exposição do mercado e novo quadro de taxas
Como reporta o Banco de Portugal, a evolução mais recente do crédito à habitação mostra uma separação entre prazos da Euribor, com a taxa a seis meses em 2,622%, a taxa a 12 meses em 2,789% e a taxa a três meses em 2,330%. Esta diferença é particularmente sensível para o mercado português porque os contratos indexados ao prazo de seis meses representam a maior fatia dos empréstimos variáveis.Segundo estatísticas do Banco de Portugal até abril, a Euribor a seis meses representa 39,56% do stock vivo de crédito à habitação de taxa variável para residência principal, acima dos 31,53% da Euribor a 12 meses e dos 24,55% da Euribor a três meses. Isso significa que uma subida de 0,016 pontos na taxa a seis meses afeta diretamente o maior grupo de mutuários no momento de revisão dos contratos.
No mesmo movimento, a taxa a 12 meses sobe 0,041 pontos face ao nível de quinta-feira, influenciando cerca de um terço da carteira variável. Já a taxa a três meses recua 0,056 pontos, oferecendo algum alívio aos contratos indexados a este prazo, depois de ter atingido 2,417% a meio da semana, o valor mais alto desde março de 2025.
Impacto nas famílias e política do BCE
A alteração do cenário ocorre depois de o Banco Central Europeu subir as três taxas diretoras em 0,25 pontos percentuais em 12 de junho, na primeira subida desde setembro de 2023. As novas taxas entram em vigor em 17 de junho, com a facilidade permanente de depósito em 2,25%, a taxa das operações principais de refinanciamento em 2,40% e a facilidade permanente de cedência de liquidez em 2,65%.O BCE revê também em alta a previsão de inflação para 2026, para 3,0%, acima da estimativa anterior de 2,6%, sobretudo devido aos custos energéticos. Ao mesmo tempo, reduz a projeção de crescimento da zona euro para 0,8% este ano, num contexto de pressão simultânea sobre atividade económica e preços.
Para os agregados familiares, o efeito imediato depende do prazo Euribor definido no contrato, da data da próxima revisão e do capital em dívida. Num empréstimo de 150 mil euros a 30 anos, com spread de 1% e indexação à Euribor a 12 meses, a prestação mensal sobe cerca de 50 euros na próxima revisão se for aplicada a taxa atual de 2,789%, em comparação com a média mensal de maio de 2,804%.
A volatilidade é mais visível nos prazos curtos. A Euribor a três meses oscila de 2,417% para 2,330% em poucos dias, o que dificulta o planeamento financeiro de famílias já próximas dos limites de esforço. Neste contexto, a renegociação do spread, a mudança para taxa fixa ou mista e a transferência do crédito para outro banco permanecem entre as principais opções para reduzir risco e estabilizar encargos.
O próximo encontro de política monetária do BCE, marcado para 22 e 23 de julho em Frankfurt, deverá clarificar se o atual movimento é temporário ou o início de uma trajetória mais duradoura de subida. A probabilidade de manutenção das taxas nessa reunião é de 81%, mas o comportamento da energia e da inflação subjacente continua a ser decisivo para a evolução futura da Euribor e das prestações da habitação em Portugal.
Na nossa publicação anterior sobre a escalada dos preços da habitação em Portugal, analisámos como a falta crónica de nova construção e a evolução do rendimento das famílias têm pesado mais na valorização das casas do que as variações das taxas de juro no curto prazo. O texto também destacava os estrangulamentos do lado da oferta — custos de construção, escassez de mão de obra e licenciamentos lentos — e enquadrava a resposta pública, entre metas e incentivos até 2026, mas com limites na execução.
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