UNICRE mostra queda do gasto médio nos Santos Populares em Portugal
Os maiores arraiais de junho em Portugal atraem mais pessoas, mas geram compras de menor valor por saída. Os dados da época dos Santos Populares de 2026 indicam que as famílias portuguesas estão a restringir despesa discricionária mesmo em momentos de forte consumo cultural.
Destaques
- Durante o São João no Porto, o número de pagamentos com cartão subiu 14,85% e a faturação avançou 6,19%, mas o ticket médio caiu 7,54% para 21,01 euros.
- No Santo António em Lisboa, as transações aumentaram 7,41%, porém a receita total recuou 4,95% e o gasto médio por cartão caiu 11,51% para 29,49 euros.
- O volume de transações cresceu quase exclusivamente por cartões portugueses, reforçando a dependência interna, enquanto o ticket médio geral recuou para 20 a 25 euros.
Pagamentos sobem, mas ticket médio recua
Como mostrou o relatório REDUNIQ Insights da UNICRE, a rede de pagamentos registou uma divergência entre o aumento do número de transações e a redução do valor médio gasto nas festas populares de Lisboa e Porto.No Porto, durante o São João de 23 e 24 de junho, o número de pagamentos com cartão sobe 14,85% em termos homólogos e a faturação avança 6,19%. Ainda assim, o valor médio por transação desce 7,54%, para 21,01 euros.
Em Lisboa, o fim de semana de Santo António, a 12 e 13 de junho, revela uma pressão maior sobre o consumo. O volume de transações cresce 7,41%, mas a receita total cai 4,95%, enquanto o gasto médio por utilização de cartão recua 11,51%, de 33,33 euros para 29,49 euros.
Tiago Oom, analista de mercado da UNICRE, descreve estes dados como um barómetro da vitalidade do comércio local. Na sua leitura, as festas continuam a gerar movimento e a dinamizar os negócios, mas o padrão de consumo mostra um comprador mais racional e seletivo no momento da compra.
Impacto no retalho e no consumo local
O retrato traçado pela UNICRE encaixa num contexto de pressão persistente sobre o poder de compra, com projeções de inflação para 2026 entre 2,5% e 3,2%, e uma estimativa de 3,1% por parte do Banco de Portugal. Esse enquadramento ajuda a explicar por que razão os consumidores preservam despesas não essenciais mesmo durante eventos de grande relevância social.Para os comerciantes, o desafio passa a ser operacional. Mais clientes já não significam automaticamente mais receita, o que obriga a ajustar preços, acelerar serviço, rever custos fixos por transação e adaptar a oferta a compras médias mais baixas, na faixa dos 20 a 25 euros em vez dos 30 a 40 euros.
Na desagregação setorial, o Porto regista os maiores avanços em cabeleireiros e salões, com subida de 65,75% na receita, seguido por peças e reparação automóvel, livrarias, tabacarias e postos de combustível. Em Lisboa, o crescimento concentra-se mais em bens essenciais, com o comércio tradicional de mercearia a subir 29,02%, além de ganhos em papelaria e tabaco, perfumaria, supermercados e despesas ligadas à saúde.
O relatório também mostra que o crescimento do volume de transações é impulsionado quase exclusivamente por cartões portugueses, enquanto a utilização de cartões estrangeiros se mantém praticamente estável face ao ano anterior. Isso sugere que a mudança de comportamento parte sobretudo dos residentes, reforçando a ideia de que o comércio dos Santos Populares continua dependente da procura interna, num cenário em que mais afluência não se traduz em maior gasto por pessoa.
Na nossa publicação anterior sobre a inflação em Portugal e a resposta do BCE, analisámos a projeção de preços ainda acima de 3% até 2026 e o impacto direto no poder de compra, sobretudo em despesas essenciais como energia, combustíveis e alimentação. Também destacámos que a política monetária mais restritiva tende a manter o crédito mais caro, condicionando o consumo e obrigando famílias e empresas a ajustarem orçamentos num contexto de volatilidade energética.
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