Universidade de Aveiro desenvolve emulsões alimentares a partir de borras de café em Portugal
A valorização de resíduos do café ganha novo peso em Portugal com uma investigação da Universidade de Aveiro que transforma borras usadas em emulsões alimentares estáveis e compostos com potencial comercial. O trabalho incide sobre um subproduto gerado em grande escala no país, mais de 34 toneladas por dia apenas no consumo doméstico, e aponta para aplicações em alimentos sustentáveis e de maior valor acrescentado.
Destaques
- A Universidade de Aveiro desenvolveu extratos de borras de café que funcionam como emulsificantes e antioxidantes, destacando-se o MW1Sn com maior teor de ácidos clorogénicos.
- As novas emulsões protetoras preservam o aroma do café e limitam a formação de aldeídos, mostrando potencial para aplicação em lacticínios, bebidas prontas e alimentos funcionais.
- A valorização de borras de café pode aumentar margens face ao uso energético, fortalecer PME portuguesas e posicionar Portugal na inovação europeia de economia circular alimentar.
Investigação cria ingredientes a partir do resíduo
A ThePortugalPost, a investigação do Departamento de Química da Universidade de Aveiro, publicada na revista Food Chemistry, mostra que as borras de café usadas podem ser aproveitadas para obter óleo, antioxidantes e polissacarídeos com capacidade emulsificante.A equipa concentra-se em dois componentes normalmente descartados, o óleo residual retido nas borras e os polissacarídeos que permanecem após a preparação da bebida. Com recurso a extração assistida por micro-ondas, os investigadores obtêm dois extratos distintos a 150°C e 180°C, designados MW1Sn e MW2Sn.
Ambos os extratos contêm galactomananos e arabinogalactanos, hidratos de carbono complexos com propriedades emulsificantes. O extrato obtido a temperatura mais baixa destaca-se por apresentar níveis mais elevados de ácidos clorogénicos, associados à atividade antioxidante e à limitação da oxidação lipídica que deteriora os óleos.
Com estes extratos, os investigadores desenvolvem emulsões água em óleo em água, estruturas que encapsulam ingredientes sensíveis em camadas protetoras. Segundo o estudo, estas emulsões mantêm a integridade estrutural ao longo do tempo, preservam compostos voláteis responsáveis pelo aroma do café e limitam a formação de aldeídos associados a sabores degradados.
Potencial para a indústria alimentar e economia circular
A aplicação desta tecnologia poderá interessar a fabricantes de produtos lácteos com sabor a café, bebidas prontas a consumir e alimentos especializados que dependem da preservação do aroma e da frescura. A possibilidade de produzir emulsificantes e antioxidantes de origem local também abre espaço para pequenas e médias empresas portuguesas reduzirem dependência de ingredientes importados.O estudo enquadra-se num contexto mais amplo de economia circular já visível em Portugal, onde empresas como Delta Cafés, PRIO e Buondi participam em projetos de reaproveitamento de resíduos de café para briquetes, biofertilizantes e outros materiais. A incorporação de ingredientes de grau alimentar nesse portefólio poderá gerar margens superiores às de usos energéticos ou de compostagem e ajudar a justificar investimento em recolha e processamento.
No plano ambiental, o reaproveitamento das borras pode reduzir o envio para resíduos urbanos e as emissões associadas à decomposição. No plano económico, o óleo de café, os extratos antioxidantes e os polissacarídeos surgem como matérias-primas com valor em alimentação, cosmética e nutracêutica, reforçando o posicionamento de Portugal num segmento europeu de inovação baseada em resíduos.
Na nossa publicação anterior sobre o novo apoio da Fundação Calouste Gulbenkian às comunidades de energia renovável, explicámos como o programa pretende financiar até dez projetos de produção elétrica partilhada, com candidaturas até setembro e apoio que pode chegar a 30 mil euros por iniciativa. O texto também destacou que, apesar do interesse crescente, a expansão destas comunidades em Portugal continua travada por dificuldades de acesso a financiamento e pela lenta formalização do modelo.
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