Elena Nikulina

Renda fixa no Brasil mantém debate sobre CDI e prazos mais longos após corte da Selic

Renda fixa no Brasil mantém debate sobre CDI e prazos mais longos após corte da Selic
Renda fixa repensada no Brasil

Com a Selic em queda, investidores de renda fixa reavaliam se faz sentido permanecer concentrados no CDI ou ampliar exposição a papéis indexados à inflação e títulos privados. A avaliação predominante entre especialistas é que os juros seguem elevados por um período prolongado, embora haja divergências sobre o momento de travar taxas mais longas.

Destaques

  • O corte da Selic para 13,75% aumenta a incerteza e reforça preferência do mercado pelos pós-fixados atrelados ao CDI, que deve seguir acima de 13%.
  • A perda do diferencial de juros entre Brasil e EUA, somada ao petróleo acima de U.S. 100 e Treasury a 5%, intensifica cautela e motiva foco em Tesouro IPCA+ de prazos curtos e intermediários.
  • A remuneração de 100% do CDI em grandes bancos é considerada forte, mas no crédito privado há recomendação de exigir prêmio adicional e evitar prazos longos diante do risco de liquidez e dúvidas sobre isenção fiscal.

Estratégias para Tesouro e pós-fixados

Como informou o InfoMoney, o novo corte da Selic nesta semana aumentou a incerteza sobre os próximos passos do Banco Central e reacendeu a discussão sobre a alocação mais adequada em renda fixa. No mesmo período, a redução do diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos reforça a cautela de parte do mercado, depois de a taxa básica brasileira cair para 13,75% e os juros norte-americanos avançarem.

Bruno Corano, economista e CEO da Corano Capital, avalia que o corte torna mais difícil a continuidade de reduções relevantes e defende que o CDI deve permanecer acima de 13% por um período longo. Para ele, o pós-fixado continua sendo a alternativa mais racional para a maioria dos investidores, por combinar retorno elevado, liquidez e menor volatilidade, enquanto aportes em Tesouro IPCA+ devem ser feitos de forma gradual e em prazos curtos ou intermediários.

Edson Mendes, sócio-fundador da Private Investimentos, também vê continuidade no ciclo de cortes, mas com forte cautela diante do risco fiscal, do petróleo acima de U.S. 100 dólares e do Treasury de 10 anos perto de 5%. Na visão dele, ainda existem oportunidades em títulos atrelados à inflação, sobretudo para quem busca construir taxa média ao longo do tempo, enquanto vencimentos intermediários, como 2032, apresentam relação mais equilibrada entre retorno e risco do que papéis muito longos.

A Ghia Multi Family Office adota leitura mais construtiva e entende que a maior parte da queda das taxas ainda não ocorreu. Segundo Bruno de Paula, diretor da casa, a assimetria é favorável para quem compra agora, embora a gestora evite prazos excessivamente longos e mantenha duration próxima à do IMA-B, ao redor de seis anos.

Crédito privado e riscos de alongamento

O Tesouro Prefixado 2032 divide menos opiniões, mas ainda inspira prudência. Mendes afirma que o investidor perde proteção contra a inflação nesse tipo de papel e, em um ambiente de petróleo elevado, incerteza fiscal e possível pressão cambial, precisa exigir margem de segurança maior, enquanto Corano considera o ativo uma possível armadilha e Bruno de Paula diz que sua casa não carrega prefixados há três anos.

Para investidores que já acumulam ganhos com marcação a mercado, Mendes diz que a decisão entre vender ou manter o título depende do objetivo original da compra. Corano recomenda realizar ao menos parte do lucro e migrar para pós-fixados líquidos, argumentando que uma eventual alta dos juros pode devolver rapidamente parcela relevante do ganho acumulado.

No crédito bancário, Corano considera uma remuneração de 100% do CDI em grandes bancos bastante forte no ambiente atual, mas afirma que, em instituições menores, é necessário exigir prêmio adicional dentro da cobertura do FGC. Ele também avalia que a discussão recente sobre eventual fim da isenção de IR de LCIs e LCAs não justifica alongar prazos, porque o risco de liquidez e o prazo extenso já estão presentes no momento da aplicação.

Em debêntures incentivadas, CRIs, CRAs e FI-Infras, a visão é mais defensiva. Mendes entende que o prêmio sobre a NTN-B está excessivamente comprimido, enquanto André Leite, CIO da TAG Investimentos, afirma que a casa mantém sua posição mais negativa no termômetro interno para crédito high grade, por considerar que o risco oferecido pelo segmento não está sendo adequadamente remunerado.

Em nossa matéria anterior sobre o fechamento das taxas dos títulos públicos atrelados à inflação (Tesouro IPCA+/NTN-B), mostramos que a queda das taxas reais melhora o retorno de quem já está posicionado e ainda pode abrir espaço para novas entradas. Na leitura da Ghia Multi Family Office, o potencial depende do cenário eleitoral e das expectativas fiscais, com preferência por vencimentos intermediários e cautela com prazos muito longos. Também destacamos simulações de retorno para a NTN-B 2032 e a estratégia de manter a carteira próxima da duration do IMA-B, evitando títulos prefixados por risco-retorno menos favorável.

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