Brasil high yield amplia pressão por diversificação internacional
A concentração do patrimônio de investidores brasileiros no mercado doméstico passa a ser vista como um risco crescente por especialistas do setor financeiro. Em painel realizado nesta semana no Congresso Planejar, executivos e estrategistas afirmam que a baixa alocação no exterior limita a diversificação e deixa de fora a maior parte das oportunidades globais.
Destaques
- Especialistas no Congresso Planejar destacam que os títulos públicos brasileiros pagam retornos elevados devido à classificação internacional próxima de Double B, refletindo risco soberano percebido como high yield.
- Com apenas 1% do patrimônio investido no exterior, brasileiros acessam só 1,5% das oportunidades globais, enquanto o mercado mundial de investimentos soma US$ 155 trilhões contra US$ 2 trilhões no Brasil.
- A expansão de plataformas, ETFs ativos e produtos como UCITS e CLOs facilita o acesso internacional e pode elevar alocação externa no Brasil para 20–30% nos próximos anos, aumentando a competição e exigindo maior qualificação profissional.
Evento destaca limites da alocação doméstica
Como mostrou o InfoMoney Mercados, especialistas reunidos no Congresso Planejar avaliam que o investidor brasileiro ainda trata os títulos públicos locais como ativos de risco muito baixo, embora o mercado internacional enquadre o Brasil como emissor high yield. Marcelo Guterman, especialista de investimentos da Franklin Templeton Brasil, afirma que a percepção externa do risco soberano brasileiro se aproxima de uma classificação Double B, o que ajuda a explicar os retornos mais elevados pagos no país.Na mesma discussão, Giuliano De Marchi, CEO da J.P. Morgan Asset Management na América Latina, diz que a indústria brasileira de investimentos soma cerca de US$ 2 trilhões, enquanto o mercado global deve encerrar o ano em torno de US$ 155 trilhões. Para ele, o Brasil representa apenas 1,5% das oportunidades globais de investimento, o que significa que uma carteira concentrada no país deixa de acessar 98,5% das alternativas de diversificação entre geografias e classes de ativos.
Guterman atribui parte desse comportamento ao home bias, viés que leva investidores a manter recursos no próprio país. Segundo ele, no caso brasileiro esse efeito é reforçado pelo nível elevado dos juros reais, que influencia negativamente ativos de risco, títulos longos, crédito e também o avanço da diversificação internacional.
William Castro Alves, estrategista-chefe e sócio da Avenue, afirma que o CDI cria uma sensação de conforto de curto prazo, mas perde força quando descontada a inflação e quando convertido em dólar. Na avaliação dele, o investidor que permanece preso ao rendimento doméstico pode ficar de fora de uma transformação mais ampla no acesso a carteiras globais de renda fixa e renda variável.
Plataformas e produtos ampliam acesso externo
Os especialistas também apontam que a expansão das plataformas de investimento internacional reduz barreiras burocráticas e fiscais para o investidor brasileiro. Entre os produtos em destaque, De Marchi cita os ETFs ativos, que podem reduzir custos de distribuição e de gestão em relação à estrutura tradicional de fundos.Alves ressalta ainda o avanço das estruturas UCITS, fundos europeus sediados na Irlanda ou em Luxemburgo que podem ser acessados do Brasil. Segundo ele, esses veículos ajudam a mitigar a exposição ao imposto sobre herança dos U.S. e permitem diferimento fiscal com o reinvestimento automático de dividendos.
Guterman também menciona instrumentos pouco presentes no mercado local, como os CLOs, estruturas de crédito corporativo que podem oferecer retornos mais altos em dólar, embora tragam maior complexidade e participação de risco na composição. Para De Marchi, esse aumento da oferta reforça o papel do planejador financeiro como orientador da alocação entre diferentes estratégias.
Hoje, o investidor brasileiro aloca em média apenas 1% do patrimônio no exterior, percentual bem abaixo de Chile, Colômbia e México, afirma De Marchi. A expectativa dele é que essa fatia avance para algo entre 20% e 30% nos próximos anos, movimento que tende a exigir maior preparo técnico dos profissionais e a ampliar a competição no setor de investimentos.
Em nossa matéria anterior sobre a queda da Selic e seus efeitos na renda fixa, mostramos como investidores passaram a reavaliar a concentração no CDI e a considerar papéis indexados à inflação e títulos privados. Também destacamos a preferência de parte do mercado por pós-fixados diante das incertezas, além da cautela com alongamento de prazos e com o crédito privado quando o prêmio não compensa os riscos de liquidez e fiscais.
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