Caso Sines agrava risco reputacional em torno do projeto Start Campus
As escutas agora conhecidas colocam nova pressão sobre o caso do centro de dados de Sines, um investimento de 8,5 mil milhões de euros que permanece associado à Operação Influencer. O processo mantém implicações para a confiança dos investidores e para a execução de um projeto apontado como estratégico para o Alentejo e para a conectividade internacional de Portugal.
Destaques
- Intercepções telefónicas contradizem declarações públicas de António Costa sobre o projeto Start Campus, agravando o risco reputacional e a incerteza política.
- A Operação Influencer levou à queda do governo em novembro de 2023 e envolve suspeitas de tráfico de influência, apesar da redução do âmbito judicial em abril de 2024.
- O impasse judicial impacta negativamente o cronograma do Start Campus, previsto para 1,2 GW até 2028, criando incerteza para milhares de potenciais empregos e para investidores internacionais.
Escutas e contradições no processo
Segundo a CNN Portugal e a TVI, a Polícia Judiciária confronta o ex-primeiro-ministro António Costa com uma conversa telefónica de 24 de dezembro de 2022 que contraria declarações públicas feitas por si em novembro de 2023 sobre o projeto Start Campus, em Sines.Na chamada, Costa terá dito a Diogo Lacerda Machado que já sabia que este tinha ido dar boas notícias a Vítor Escária, então chefe de gabinete. Lacerda Machado, consultor ligado ao empreendimento, terá respondido que o projeto apresentava uma dinâmica extraordinária e que os norte-americanos estavam finalmente a levar Sines a sério, acrescentando que isso justificava que Costa fosse informado.
O teor da conversa contrasta com a afirmação televisiva de Costa de que Lacerda Machado nunca lhe falou do assunto em circunstância alguma. Lacerda Machado é arguido no processo, enquanto Costa não foi constituído arguido, embora surja como suspeito no âmbito das diligências.
Questionado em Braga, à margem de um evento na Universidade do Minho, Costa recusou comentar o conteúdo das escutas e disse não saber nada sobre o caso. Acrescentou que foi ouvido há quase dois anos, a seu pedido, e que continua sem acesso ao processo, apesar de o ter requerido várias vezes.
Impacto político e económico em Sines
A Operação Influencer investiga alegados crimes relacionados com o centro de dados Start Campus, concessões de lítio em Montalegre e Boticas e uma unidade de hidrogénio verde em Sines. O inquérito derrubou o governo em novembro de 2023, após detenções que incluíram Vítor Escária, no gabinete de quem a polícia encontrou 75.800 euros em numerário escondidos em livros, caixas de vinho e envelopes.Uma decisão do Tribunal da Relação de Lisboa, em abril de 2024, reduziu o alcance das suspeitas iniciais para tráfico de influência e concluiu depois não haver prova suficiente nem para esse enquadramento, mas o inquérito continua aberto. O ex-Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, confrontado com as novas revelações, recusou rever publicamente a decisão de dissolver o parlamento e convocar eleições antecipadas.
Para a economia regional, o impasse judicial prolonga a incerteza sobre um projeto planeado para entregar 1,2 GW de capacidade até 2028 e criar milhares de empregos diretos e indiretos no Alentejo. O Start Campus é visto como uma peça relevante na ambição de posicionar Sines como polo internacional de conectividade entre a América do Norte, África e a América Latina, embora o caso continue a pesar sobre a confiança dos investidores e sobre o escrutínio regulatório de projetos classificados como de interesse nacional.
Na nossa cobertura anterior sobre as escutas do caso Start Campus em Sines, destacámos que as interceções telefónicas entre António Costa e Diogo Lacerda Machado reabriram o escrutínio sobre as declarações públicas do ex-primeiro-ministro em novembro de 2023. Também sublinhámos que a divulgação destes elementos mantém a Operação Influencer no centro do debate político e judicial, num processo que contribuiu para a queda do Governo e continua a gerar pressão institucional.
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