PRR corta 483 milhões na transição climática após reprogramações do Governo
As reprogramações do Plano de Recuperação e Resiliência feitas no último ano e meio reduzem a verba dedicada à transição climática, a área mais penalizada nas alterações ao programa. Apesar dos cortes, Portugal continua a cumprir os limiares europeus de afetação mínima de fundos às transições climática e digital.
Destaques
- O Governo de Luís Montenegro cortou 483 milhões de euros na transição climática do PRR, reduzindo a dotação de 4,2 mil milhões para 3,7 mil milhões de euros.
- Os principais cortes incidiram na eficiência energética (menos 35%) e mobilidade sustentável (menos 34,8%), excluindo projetos como o metro Odivelas-Loures e a digitalização das escolas (menos 36,9%).
- A componente de resiliência do PRR aumentou 3,3%, atingindo 15,8 mil milhões de euros, devido ao reforço do Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade.
Cortes no PRR e mudanças na alocação
Como reportado pelo Jornal de Negócios, o relatório anual da comissão nacional de acompanhamento, divulgado esta quinta-feira, conclui que as três reprogramações feitas por governos de Luís Montenegro reduziram em 483 milhões de euros a dotação da transição climática, de 4,2 mil milhões para 3,7 mil milhões de euros.As reduções concentram-se sobretudo na eficiência energética, com um corte de 35%, e na mobilidade sustentável, com uma quebra de 34,8%. Entre os projetos retirados estão o metro ligeiro de superfície Odivelas-Loures e o metro de Lisboa, a par de uma diminuição da ambição em medidas de melhoria da eficiência energética dos edifícios, incluindo cortes nos vales de eficiência energética e no programa E-Lar.
Na transição digital, as reprogramações feitas por executivos de Luís Montenegro trazem também uma redução de 12,4% face às verbas alocadas até ao início de 2025, com o montante a encolher de 2,7 mil milhões para 2,4 mil milhões de euros. A digitalização das escolas surge como a componente mais afetada, com uma quebra de 36,9% devido à retirada de projetos nesta área.
A redução da ambição nas duas transições resulta também da descida do montante global do PRR, depois de o Governo ter abdicado de 311 milhões de euros em empréstimos na terceira reprogramação. Com essa decisão, o envelope financeiro total do plano baixa de 22,2 mil milhões para 21,9 mil milhões de euros.
Resiliência ganha peso e comissão aponta falhas
A componente de resiliência do PRR é, em contrapartida, reforçada. Segundo a comissão de acompanhamento, a dotação desta vertente sobe 3,3%, de 15,3 mil milhões para 15,8 mil milhões de euros, com o aumento a ser explicado em particular pelo reforço do Instrumento Financeiro para a Inovação e Competitividade, mecanismo criado pelo atual Governo.O relatório assinala que Portugal continua a cumprir as duas condições impostas por Bruxelas para aprovação dos PRR e das respetivas reprogramações, nomeadamente a afetação de pelo menos 37% do envelope financeiro à transição climática e de 20% à transição digital. Ainda assim, a comissão considera que a ambição nas duas dimensões foi significativamente reduzida face ao que estava previsto até ao início de 2025.
A comissão de acompanhamento assinala ainda que as reprogramações ocorridas neste período acontecem com níveis limitados de discussão pública. Na avaliação do organismo, essa limitação pode ter implicações na previsibilidade das intervenções, na compreensão das opções adotadas e na sua implementação.
No nosso artigo anterior sobre o lançamento do Plano de Transformação, Recuperação e Resiliência (PTRR) após as tempestades, explicámos que o Governo apresentou um envelope total de 22,6 mil milhões de euros, combinando financiamento público, fundos europeus, capital privado e verbas de entidades como a AICEP e a Águas de Portugal. Também destacámos que o plano foi desenhado para coordenar investimento e acelerar a resposta a danos meteorológicos, num contexto de pressão sobre a reconstrução e de debate sobre prazos e instrumentos de apoio.
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