Portugal enfrenta pressão inflacionista e fragilidade exportadora apesar do crescimento económico
A economia portuguesa cresce 2,3% no primeiro trimestre em termos homólogos, mas fica estagnada face ao trimestre anterior, revelando uma divergência entre a procura interna e o setor externo. O abrandamento do comércio externo, a subida dos custos energéticos e o pico de execução do PRR em 2026 reforçam os riscos para famílias, empresas e investidores no resto do ano.
Destaques
- O PIB de Portugal cresceu 2,3% ano a ano no primeiro trimestre, mas registou variação nula em relação ao trimestre anterior, refletindo dependência da procura interna.
- O Banco de Portugal reviu em março a previsão de crescimento para 2024 para 1,8% e estima inflação de 2,8% para 2026, citando riscos estruturais e choques externos.
- O investimento financiado pelo PRR deverá impulsionar a construção em 4,4% em 2026, mas o setor exportador enfrenta compressão de margens devido a custos elevados e procura externa fraca.
Divergência entre procura interna e setor externo
Como noticiado pelo ThePortugalPost, os dados do Instituto Nacional de Estatística de Portugal mostram que o crescimento homólogo de 2,3% no primeiro trimestre contrasta com uma variação trimestral nula, num sinal de que a atividade interna continua a sustentar a economia enquanto a frente externa perde força.O investimento acelera no arranque do ano, impulsionado sobretudo pela despesa pública associada ao Plano de Recuperação e Resiliência, enquanto o consumo privado beneficia de medidas como o alívio no IRS e aumentos das pensões. Em comparação com o quarto trimestre de 2025, a procura interna volta a terreno positivo e compensa parte da deterioração do comércio externo.
Já a procura externa líquida agrava-se, com as importações de bens e serviços a crescerem mais depressa do que as exportações. Essa inversão surge num momento de fraqueza da procura europeia e pressiona particularmente as empresas portuguesas mais dependentes das vendas para mercados como Espanha, França, Itália e Alemanha.
O impacto chega também aos consumidores, porque o aumento das importações energéticas e de matérias-primas encarece combustíveis, serviços públicos e bens finais. O Banco de Portugal revê em março a previsão de crescimento para 1,8%, abaixo da meta oficial do governo, refletindo uma avaliação mais cautelosa sobre os riscos estruturais da economia.
Inflação, PRR e risco para 2026
Dois choques externos agravam o enquadramento macroeconómico em 2026. As tempestades de janeiro e fevereiro causam danos superiores a 2 mil milhões de euros, pressionam a receita fiscal e levam o governo a abandonar a meta de excedente orçamental, enquanto a tensão no Médio Oriente faz subir os preços da energia e agrava os custos de produção e transporte.Perante esse cenário, o Banco de Portugal passa a apontar para uma inflação de 2,8% em 2026, o que reduz o poder de compra das famílias, sobretudo entre pensionistas e trabalhadores com salários sem atualização equivalente. Ao mesmo tempo, o espaço orçamental para novas medidas de apoio encolhe, limitando a capacidade do Estado para amortecer novos choques.
O principal foco de oportunidade continua a estar no investimento apoiado pelo PRR, cujo pico de execução ocorre em 2026. A construção deverá crescer 4,4% no ano, sustentada por projetos de infraestruturas, transportes e transição energética, mas esse impulso perde intensidade após o fim do atual ciclo de financiamento europeu.
Para os exportadores e para as empresas dependentes de importações, o quadro torna-se mais apertado. A procura fraca na zona euro, combinada com custos elevados de energia e matérias-primas, comprime margens e reforça a necessidade de planeamento defensivo, com maior cautela nas projeções de receita e na gestão dos contratos de fornecimento.
Na nossa cobertura anterior sobre o PIB de Portugal no 1.º trimestre de 2026, destacámos que o crescimento homólogo de 2,3% contrastou com a estagnação em cadeia, sinalizando perda de ritmo face ao final de 2025. Também sublinhámos a divergência entre a procura interna, apoiada pelo investimento associado ao PRR e pela entrada de investimento direto estrangeiro, e o agravamento da balança externa, num contexto em que a subida dos custos de energia aumentava os riscos para 2026.
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