Portugal mantém saída de talento qualificado apesar de incentivos fiscais

Portugal mantém saída de talento qualificado apesar de incentivos fiscais
Fuga de talento persiste

Portugal continua a perder profissionais qualificados para a Europa Ocidental, num contexto em que os salários pagos no mercado interno ficam muito abaixo dos praticados em destinos como Alemanha, Países Baixos e Suíça. A pressão agrava a escassez de mão de obra em setores como tecnologia, engenharia e investigação, mesmo com novos apoios fiscais e programas de regresso em vigor.

Destaques

  • Cerca de 65 mil portugueses emigraram em 2024, com profissionais entre 25 e 34 anos predominando, apesar dos incentivos fiscais do governo.
  • Engenheiros civis em Portugal recebem entre 1.580 e 2.334 euros mensais contra mais de 5 mil euros na Alemanha e nos Países Baixos, mantendo o diferencial salarial como principal fator da emigração.
  • A escassez de talento qualificado pressiona salários, prolonga recrutamento e aumenta dependência de estrangeiros, especialmente em IA, cloud, cibersegurança e saúde, mesmo com programas como o Programa Regressar e Global Talent Visa.

Diferencial salarial sustenta a emigração

Conforme noticiou o ThePortugalPost.com, cerca de 65 mil cidadãos portugueses deixaram o país em 2024, com os profissionais entre os 25 e os 34 anos a representarem a maioria dessa saída. O texto indica ainda que Portugal ocupa a 14.ª posição entre os países da União Europeia no índice de fuga de cérebros e que quase 30% dos jovens portugueses entre os 15 e os 39 anos já vivem e trabalham no estrangeiro.

Os dados reunidos mostram que a emigração de profissionais altamente qualificados cresceu 82% entre 2000 e 2011, acima do aumento de 18% da emigração total. Entre 2020 e 2023, saíram anualmente cerca de 70 mil jovens qualificados, atraídos por salários mais elevados, progressão de carreira mais clara e melhor relação entre rendimento e custo de vida.

O desfasamento remuneratório permanece um dos principais fatores. Em Portugal, um engenheiro civil recebe em média entre 1.580 e 2.334 euros por mês, enquanto funções comparáveis podem superar 5 mil euros mensais na Alemanha ou nos Países Baixos; na Suíça e no Luxemburgo, os valores anuais ultrapassam frequentemente 120 mil euros. Na tecnologia, apesar da subida dos salários brutos médios desde 2019, os níveis pagos em Portugal continuam abaixo dos observados nos principais mercados europeus, e o mesmo padrão repete-se na investigação científica.

Medidas públicas enfrentam escassez de talento

Perante uma taxa de 82% de empregadores com dificuldade em contratar, o governo tem em marcha um conjunto de medidas de retenção e atração de talento. Entre elas estão a isenção de 100% de IRS no primeiro ano para trabalhadores até aos 35 anos abrangidos pelo regime lançado em outubro de 2024, a extensão do Programa Regressar até março de 2026 e os apoios do IEFP à contratação sem termo de jovens qualificados e emigrantes regressados.

O pacote inclui também novas tabelas de retenção na fonte em 2026, a subida do salário mínimo nacional para 900 euros até 2026, incentivos à contratação jovem com remunerações de 1.320 euros ou mais e a futura aplicação das regras europeias de transparência salarial. No lado da atração externa, Portugal mantém instrumentos como o Global Talent Visa, o Tech Visa, o visto D8 e o novo enquadramento legal focado em profissionais altamente qualificados.

A escassez é mais visível em áreas como inteligência artificial, cloud, cibersegurança, análise de dados, engenharia, saúde, energia renovável, turismo e agricultura. Para as empresas, isso traduz-se em custos salariais mais altos, processos de recrutamento mais longos e maior dependência de talento estrangeiro, enquanto a capacidade do país para inverter a fuga de cérebros continua dependente de uma aproximação mais rápida entre salários, custos de habitação e oportunidades de carreira.

Na nossa publicação, analisámos a estratégia de Portugal para acelerar a adoção de inteligência artificial e digitalização até 2030, com mais de 1 mil milhões de euros comprometidos para infraestrutura, cloud, supercomputação e capacitação. O artigo destacou o potencial de ganhos de produtividade e crescimento, mas também os riscos para o emprego com a automação e a necessidade de reforçar competências digitais e requalificação para evitar desequilíbrios no mercado de trabalho.

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