Portugal abranda previsão de crescimento sob pressão da inflação, habitação e emprego
Portugal entra em 2026 com uma perspetiva económica mais fraca, num contexto de choques externos, custos de reconstrução e fim gradual de estímulos ao investimento. A revisão coloca o país abaixo da meta de crescimento do governo e reforça o debate sobre políticas de habitação, mercado de trabalho e margem orçamental.
Destaques
- FMI reduziu previsão de crescimento do PIB português para 2026 para 1,7%, abaixo dos 1,9% de abril, citando inflação e desaceleração do PRR.
- Tempestade Kristin provocou danos diretos superiores a 4 mil milhões de euros, com prejuízo económico total estimado entre 5 mil milhões e 6 mil milhões de euros.
- FMI recomenda reversão dos incentivos fiscais na habitação e alerta para vulnerabilidade bancária ao imobiliário e dívida soberana devido à rápida valorização do setor.
Revisão do FMI agrava perspetiva para 2026
De acordo com The Portugal Post, conforme o relatório Article IV do Fundo Monetário Internacional, divulgado esta semana, a projeção de crescimento do PIB português para 2026 desce para 1,7%, abaixo dos 1,9% estimados em abril e dos 2,1% apontados em outubro de 2025. Trata-se da segunda revisão em baixa no ano e deixa a previsão alinhada com a da Comissão Europeia, mas abaixo dos 2% projetados pelo governo português e dos 1,8% do Banco de Portugal.Para 2027, o FMI prevê novo abrandamento para 1,6%, atribuindo grande parte da perda de dinamismo ao esgotamento dos investimentos do Plano de Recuperação e Resiliência. Em 2028, o crescimento deverá subir ligeiramente para 1,8%, ainda assim insuficiente para reduzir de forma significativa o diferencial de rendimento face às economias mais ricas da zona euro.
O fundo aponta ainda para uma inflação de 3,4% em 2026, impulsionada pela subida dos preços das matérias-primas e, em menor grau, pelos salários. O conflito em curso no Médio Oriente continua a pressionar os mercados de energia e as rotas marítimas, com impactos acrescidos para Portugal enquanto importador líquido de energia.
As tempestades severas no início de 2026 também pesam no cenário macroeconómico. Segundo a avaliação citada, a reconstrução no segundo semestre deverá compensar em grande medida o impacto anual no PIB, mas os danos diretos associados à tempestade Kristin já ultrapassam 4 mil milhões de euros, enquanto a estimativa preliminar do prejuízo económico total situa-se entre 5 mil milhões e 6 mil milhões de euros.
Habitação, emprego e contas públicas sob pressão
Num ambiente de crescimento mais moderado, o FMI espera um orçamento equilibrado em 2026, melhorando face à previsão de défice de 0,1% feita em abril. Esse resultado, porém, depende de contenção da despesa pública num momento em que os custos de reconstrução obrigam o Estado a adiar cortes planeados no imposto sobre o rendimento.No mercado de trabalho, a desaceleração e a redução futura dos fundos do PRR podem travar contratações em construção e infraestruturas públicas. Jean-François Dauphin, chefe de missão do FMI para Portugal, defende maior flexibilidade laboral, com regras de despedimento menos rígidas para contratos permanentes, argumentando que isso pode reduzir a segmentação entre vínculos precários e empregos protegidos.
Na habitação, o FMI recomenda reverter as isenções fiscais e garantias públicas criadas em agosto de 2024 para apoiar compradores jovens na aquisição da primeira casa. O argumento é que estes incentivos do lado da procura agravam os preços sem resolver a escassez de oferta, pelo que o fundo prefere medidas como alívio de restrições urbanísticas, melhoria do mercado de arrendamento e apoios mais direcionados a famílias vulneráveis.
Também no setor financeiro, a avaliação FSAP do FMI alerta para a valorização rápida do imobiliário e para a necessidade de vigilância rigorosa. Embora o sistema bancário seja descrito como mais sólido do que há uma década, o fundo identifica como principais vulnerabilidades a exposição da banca ao imobiliário e à dívida soberana, num quadro internacional ainda marcado por instabilidade geopolítica e mudança de política monetária.
Na nossa publicação, analisámos o défice orçamental de 0,7% do PIB registado por Portugal no primeiro trimestre de 2026, num contexto de custos extraordinários associados às tempestades e à pressão sobre os preços da energia. O artigo detalhou como os prejuízos e as medidas de resposta (moratórias e alívios fiscais) pesaram no saldo, apesar de o Governo manter a meta de fechar 2026 próximo do equilíbrio orçamental.
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