Altice Portugal enfrenta pressão laboral no SNS24 por cortes salariais em pausas de operadores

Altice Portugal enfrenta pressão laboral no SNS24 por cortes salariais em pausas de operadores
Cortes no SNS24 geram tensão

A gestão da linha SNS24 está sob escrutínio em Portugal devido a queixas de profissionais de saúde sobre descontos salariais aplicados durante pausas para necessidades básicas. As denúncias também levantam dúvidas sobre a qualidade operacional do serviço, num contexto em que enfermeiros e farmacêuticos dizem trabalhar turnos de sete a oito horas sem interrupção.

Destaques

  • Dezenas de operadores do SNS24 denunciam cortes salariais nas pausas pela Altice Portugal, devido a monitorização do tempo ao segundo.
  • Profissionais, contratados como recibos verdes, contestam falta de direitos laborais e alegam imposição de horários rígidos e penalizações por recusas de turnos.
  • ACT acompanha o caso, podendo a Altice ser forçada a reclassificar vínculos e pagar retroativos se inspeção confirmar relação de trabalho subordinada.

Queixas laborais e enquadramento contratual

Como noticiou o Jornal de Notícias, citado no texto original como o primeiro a revelar o caso, dezenas de operadores do SNS24 acusam a Altice Portugal de descontar tempo de casa de banho, água e alimentação através de um sistema que monitoriza a disponibilidade ao segundo. Segundo os testemunhos, qualquer período assinalado como indisponível reduz a remuneração, o que leva alguns profissionais a evitar pausas durante turnos prolongados.

Os operadores, muitos dos quais enfermeiros inscritos e farmacêuticos, trabalham ao abrigo de recibos verdes como prestadores de serviços. Esse modelo, descrito pela empresa como flexível e complementar a outras atividades, exclui direitos como férias pagas, subsídio de refeição, baixa por doença, licença parental e direito à greve.

Os trabalhadores contestam essa classificação e dizem que a realidade diária se aproxima de uma relação laboral tradicional, com horários definidos pela empresa, limitações na escolha de turnos e penalizações quando recusam escalas atribuídas. A Altice responde que o planeamento é feito em coordenação com os prestadores, tendo em conta a disponibilidade e preferências comunicadas.

O diferendo ganha peso regulatório porque o Código do Trabalho português prevê pausas para refeição e períodos mínimos de descanso entre turnos para trabalhadores com contrato de trabalho. No entanto, essas proteções não se aplicam automaticamente a prestadores independentes, criando uma zona cinzenta que a Autoridade para as Condições do Trabalho, ACT, diz estar a acompanhar no âmbito de uma campanha sobre vínculos contratuais inadequados.

Impacto no serviço e resposta institucional

Os relatos reunidos entre 150 profissionais do SNS24 descrevem também tempos de espera elevados, equipas insuficientes e maior dificuldade em responder com rapidez a situações urgentes ou potencialmente fatais. Um dos casos referidos aponta para um episódio em que uma operadora teve de orientar manobras de reanimação por telefone porque o INEM não atendeu a chamada de transferência.

Para os utentes, a controvérsia amplia o risco de degradação de um serviço que funciona como porta de entrada para aconselhamento clínico e triagem médica, sobretudo fora do horário dos cuidados de saúde primários. Fadiga, desidratação e pressão operacional sobre profissionais sem pausas regulares podem afetar a precisão clínica e a capacidade de resposta em chamadas sensíveis.

A SPMS, entidade de serviços partilhados do Ministério da Saúde, reconhece o modelo em vigor, mas remete a responsabilidade pelo cumprimento da legislação laboral para a operadora privada. Já a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde, IGAS, mantém poderes para auditar prestadores públicos e privados, embora o texto não indique a abertura formal de um processo.

Se uma inspeção concluir que os operadores atuam, na prática, como trabalhadores subordinados, a empresa poderá ser obrigada a reclassificar os vínculos e a atribuir benefícios com efeitos retroativos. Até lá, o caso reforça o debate sobre a dependência de contratos precários em serviços públicos críticos de saúde em Portugal.

Na nossa publicação anterior, acompanhámos o debate sobre a revisão do Código do Trabalho após o chumbo parlamentar da proposta do Governo e o apelo da CIP para retomar as negociações com um documento novo de raiz. O texto sublinhava como a discussão sobre flexibilização das regras laborais e a necessidade de consensos entre parceiros sociais continua no centro da agenda, com impacto direto na forma como se definem direitos, deveres e vínculos no mercado de trabalho.

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