Moçambique projeta impulso do LNG e reforça peso económico para Portugal

Moçambique projeta impulso do LNG e reforça peso económico para Portugal
Moçambique impulsiona LNG

A expansão do gás natural liquefeito em Moçambique ganha dimensão estratégica para Portugal, num momento em que a Europa procura diversificar o abastecimento energético e reduzir a exposição a fornecedores tradicionais. Uma projeção financeira aponta para receitas anuais de cerca de 11 mil milhões de euros quando os três grandes projetos offshore atingirem plena capacidade, com efeitos potenciais no comércio, no financiamento e na segurança energética portuguesa.

Destaques

  • O Standard Bank projeta que as exportações de LNG de Moçambique atinjam 11 mil milhões de euros/ano, com impacto potencial de 9,6 mil milhões de euros no PIB e 3,5 mil milhões de euros em receitas fiscais anuais.
  • TotalEnergies, ExxonMobil e Eni aceleram cronogramas de investimento e produção, com TotalEnergies prevendo o início de exportações em 2029, ExxonMobil em 2030 e Eni expandindo de 2028 a 2031.
  • Aumento da produção de LNG pode beneficiar Portugal via contratos de longo prazo e oportunidades industriais, mas riscos persistem devido à insegurança em Cabo Delgado e críticas à governança do fundo soberano moçambicano.

Projetos no Rovuma aceleram calendário de produção

Como noticiou o The Portugal Post, uma projeção do Standard Bank estima que as exportações de LNG de Moçambique gerem cerca de 11 mil milhões de euros por ano quando os três principais empreendimentos offshore estiverem totalmente operacionais. O banco aponta ainda para uma expansão anual do PIB de cerca de 9,6 mil milhões de euros e para receitas fiscais de 3,5 mil milhões de euros, num quadro em que o país tenta reforçar as contas públicas e reduzir a pressão sobre a dívida soberana.

No bloco de Afungi, a TotalEnergies retomou formalmente a construção do projeto Mozambique LNG em janeiro de 2026, depois de uma suspensão iniciada em abril de 2021 na sequência de ataques armados em Cabo Delgado. A unidade foi concebida para produzir 13 milhões de toneladas por ano e o primeiro carregamento está agora previsto para o primeiro semestre de 2029.

A ExxonMobil prepara uma decisão final de investimento para setembro de 2026 no projeto Rovuma LNG, na Área 4, após o levantamento de força maior em novembro de 2025. O desenvolvimento, avaliado em 26 mil milhões de euros, deverá ter capacidade de 18 milhões de toneladas por ano e iniciar exportações em 2030.

A Eni já opera a Coral Sul FLNG desde 2022, com cerca de 3,5 milhões de toneladas anuais, e prevê ampliar a produção com a Coral Norte a partir de 2028. Em junho de 2026, a empresa lançou ainda um concurso para uma terceira unidade flutuante com capacidade nominal de 6 milhões de toneladas por ano e arranque apontado para 2031, caso o investimento avance.

Impacto para Portugal e riscos para investidores

Para Portugal, o avanço destes projetos pode traduzir-se em maior margem para contratos de fornecimento de longo prazo, num contexto em que o terminal de Sines dispõe de capacidade de regaseificação para receber volumes adicionais. A diversificação de origens pode reduzir a dependência de cargas da Argélia e da Nigéria e ajudar a estabilizar os custos energéticos para famílias e empresas.

O efeito económico também pode chegar aos serviços financeiros, à engenharia e à logística. Instituições financeiras portuguesas podem avaliar oportunidades de cofinanciamento e de apoio ao comércio, enquanto empresas nacionais podem disputar contratos em áreas como serviços marítimos, módulos prefabricados, catering e apoio industrial.

Apesar do potencial, o ambiente operacional continua marcado por riscos de segurança em Cabo Delgado, onde persistem ataques esporádicos de grupos ligados ao Estado Islâmico. O histórico recente já mostrou o impacto destes episódios nos calendários de produção, e uma nova escalada pode provocar mais atrasos, novos casos de força maior e custos adicionais para operadores, financiadores e seguradoras.

Também subsistem dúvidas sobre governação, uso das receitas e impacto ambiental. Organizações da sociedade civil moçambicana criticam a transparência do fundo soberano criado para receber parte das receitas do gás, enquanto grupos ambientais e de direitos humanos alertam para deslocações populacionais, pressões sobre ecossistemas costeiros e riscos legais para empresas integradas na cadeia de fornecimento. Para Portugal, isso significa que o potencial benefício económico vem acompanhado de exposição reputacional, regulatória e financeira.

Na nossa publicação anterior sobre a criação de um fundo soberano português junto do IGCP, explicámos que a proposta do Governo visa reforçar a autonomia do Estado através de participações em setores estratégicos como energia, banca, comunicações e infraestruturas. O texto destacava ainda que a iniciativa estava a recolher apoio maioritário numa consulta a leitores, sinalizando uma receção globalmente positiva a uma maior presença pública em áreas consideradas sensíveis para a resiliência do país.

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