Receitas de bilheteira em Portugal sobem no primeiro semestre com menos ecrãs e menos espectadores

Receitas de bilheteira em Portugal sobem no primeiro semestre com menos ecrãs e menos espectadores
Cinema cresce mesmo com menos público

As salas de cinema em Portugal aumentam as receitas no primeiro semestre de 2026 mesmo com a quebra do público e da capacidade instalada. A subida para 37,2 milhões de euros mostra que preços mais altos, formatos premium e maior consumo de bar compensam a venda de menos 108 mil bilhetes face ao mesmo período do ano passado.

Destaques

  • Receitas de bilheteira em Portugal sobem 5,8% para 37,2 milhões de euros no primeiro semestre de 2026, apesar da queda de 2% nas admissões para 5,4 milhões.
  • Número de ecrãs desce para 498 em junho de 2026 devido à insolvência da Cineplace e fechos da NOS Lusomundo, agravando a concentração da NOS que atinge 71,4% das receitas.
  • Filmes portugueses representam apenas 1% da receita e 1,5% das admissões no semestre, com 'Projeto Global' a somar 9.125 espectadores face aos 549.525 de 'A Criada'.

Bilheteira cresce com preços mais altos

Como noticiou o The Portugal Post, com base em dados do Instituto do Cinema e do Audiovisual, as operadoras de cinema arrecadam 37,2 milhões de euros em receita bruta de bilheteira nos primeiros seis meses de 2026, um aumento homólogo de 5,8%, apesar de as admissões recuarem 2%, para 5,4 milhões de bilhetes.

O desempenho reflete uma estratégia de maior receita por espectador num mercado pressionado pelo streaming e por hábitos de consumo mais caseiros. Os bilhetes em formatos premium, como IMAX, Dolby Cinema, 4DX ou lugares reclináveis VIP, permitem cobrar mais do que uma sessão standard, enquanto a venda de pipocas e bebidas continua a sustentar margens relevantes para os exibidores.

Os dados mensais mostram um mercado volátil. O primeiro trimestre regista 18,7 milhões de euros em receitas, mais 11,3% do que no mesmo período de 2025, e 2,7 milhões de espectadores, uma subida de 3,6%; janeiro sozinho soma 8,8 milhões de euros e 1,2 milhões de entradas. Em contraste, março é o mês mais fraco, com 4,2 milhões de euros e 632.399 espectadores, abril cai 15,6% em público e 6,7% em receita, e maio recupera com uma subida de 15,3% nas admissões, para 991 mil, e de 27,5% nas receitas, para 6,9 milhões de euros.

Consolidação agrava pressão regional e cinema português

O número de ecrãs em funcionamento baixa para 498 em junho de 2026, menos 42 do que um ano antes, após a insolvência da Cineplace em 16 de janeiro de 2026 e vários encerramentos da NOS Lusomundo, incluindo o complexo Alvaláxia, em Lisboa. A NOS termina junho com 196 ecrãs operacionais e reforça o domínio do mercado, concentrando 71,4% das receitas de bilheteira e 68,2% das admissões, enquanto a UCI Cinemas detém 14,2% da receita e 14% da audiência.

Esta concentração reduz a oferta em cidades de menor dimensão e aumenta a dependência de multiplexes em centros comerciais e grandes centros urbanos. Localidades como Covilhã, Viana do Castelo e Caldas da Rainha ficam sem cinema comercial, num contexto em que menor concorrência tende a limitar promoções e a sustentar nova pressão sobre os preços. A ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, lança um grupo de trabalho para avaliar a política de exibição, mas ainda sem medidas concretas anunciadas.

O cinema português continua com expressão limitada. Entre 31 longas-metragens nacionais lançadas no primeiro semestre de 2026, "Projeto Global", de Ivo M. Ferreira, lidera com 9.125 espectadores, muito abaixo de "A Criada", de Paul Feig, que vende 549.525 bilhetes e gera 3,6 milhões de euros. No conjunto, os filmes portugueses somam 385.664 euros de receita e 80.233 bilhetes, equivalentes a 1% da faturação e 1,5% das admissões, sinal de que a produção nacional continua dependente de apoio público e tem dificuldade em competir por espaço de ecrã e atenção do público.

Para o segundo semestre, o setor mantém uma perspetiva cautelosamente positiva, mas enfrenta riscos claros. A redução da janela entre estreia em sala e disponibilidade online, a melhoria dos equipamentos domésticos e a mudança de hábitos desde a pandemia continuam a pressionar a procura, o que pode acelerar novos fechos em mercados secundários se os próximos lançamentos não atraírem mais espectadores.

No nosso artigo anterior sobre o agravamento do défice comercial português em 2026, analisámos como as importações cresceram acima das exportações entre janeiro e maio, mantendo a balança de bens sob pressão. Também destacámos que o alívio pontual de maio foi muito influenciado pela rubrica de combustíveis e que a dinâmica externa pode continuar a refletir-se nos preços e no consumo interno.

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