Portugal reforça dependência de Marrocos no fornecimento de carros acessíveis

Portugal reforça dependência de Marrocos no fornecimento de carros acessíveis
Dependência automóvel cresce

O mercado automóvel português depende cada vez mais da base industrial de Tânger, em Marrocos, para abastecer modelos de grande volume como o Dacia Sandero. Essa estrutura influencia preços, prazos de entrega e a pegada industrial dos veículos vendidos em Portugal, numa altura em que Renault e Stellantis ampliam a produção no Norte de África.

Destaques

  • A fábrica Renault Group em Tânger, com capacidade de 400 mil veículos por ano, abastece Portugal com os modelos Dacia Sandero e Jogger, mantendo preços baixos devido ao custo laboral médio de 92 euros por veículo em Marrocos versus 2.950 euros na Alemanha.
  • Em 2025, Marrocos produziu 394 mil veículos Renault Group, dos quais 82% foram exportados, enquanto a Stellantis investe 1,2 mil milhões de euros para ampliar Kenitra a uma capacidade anual de 535 mil unidades.
  • A proximidade logística e expansão industrial em Marrocos garantem oferta estável e prazos de entrega curtos a Portugal, mas ampliam riscos de dependência externa e geopolítica na cadeia automóvel.

Produção marroquina sustenta oferta de baixo custo

Tal como noticiou o The Portugal Post, a zona industrial de Tânger tornou-se um eixo central para o mercado automóvel português, sobretudo no segmento de entrada de gama. A fábrica da Renault Group em Tânger, apontada como a maior unidade automóvel de África, tem capacidade anual de 400 mil veículos e produz modelos como o Dacia Sandero e o Dacia Jogger, ambos com peso comercial em Portugal.

Katrin Adt, diretora executiva da Dacia desde 2025, descreve Marrocos como elemento central na estratégia da marca e destaca a rede local de fornecedores, a mão de obra qualificada e a cooperação governamental. Segundo a responsável, a unidade de Tânger combina competitividade industrial com produção de baixo impacto, já que opera com energia renovável e sem descargas industriais de efluentes.

Para os consumidores portugueses, a principal vantagem continua a ser o preço. O texto aponta custos laborais médios de 92 euros por veículo em Marrocos, face a 2.950 euros na Alemanha, diferença que ajuda a manter o Sandero em torno de 12.500 euros no mercado português e o Jogger abaixo de 18 mil euros.

A proximidade logística também reforça a estabilidade da oferta. As ligações ferroviárias e portuárias a partir de Tânger permitem abastecer a Europa em cerca de três dias, reduzindo atrasos associados a cadeias de fornecimento mais longas e ajudando os concessionários portugueses a manter disponibilidade mais regular de stock.

Impacto no mercado português e nova vaga de investimento

A dependência de Portugal desta base produtiva deverá manter-se à medida que os grupos automóveis expandem capacidade em Marrocos. Em 2025, o país produziu 394 mil veículos da Renault Group, dos quais 82% seguiram para exportação, enquanto a Stellantis continua a ampliar o complexo de Kenitra, com investimento de 1,2 mil milhões de euros e meta de capacidade anual de 535 mil unidades.

O reforço industrial estende-se aos veículos eletrificados, motores micro-híbridos, baterias e infraestruturas de carregamento. A Renault prevê lançar cinco novos modelos em 2026 e elevar a capacidade combinada de Tânger e Casablanca para 500 mil unidades, ao mesmo tempo que a Stellantis prepara novos modelos baseados no Fiat Panda e mais produção de triciclos elétricos e componentes.

Para Portugal, o efeito é misto. Por um lado, a produção marroquina ajuda a preservar preços competitivos, sustenta prazos de entrega previsíveis e apoia redes portuguesas de logística e fornecimento de componentes; por outro, concentra riscos geopolíticos e de cadeia de abastecimento fora da Península Ibérica, além de não eliminar as emissões de escape dos modelos a combustão vendidos no país.

Na nossa publicação anterior sobre o agravamento do défice comercial português em 2026, analisámos como as importações têm crescido acima das exportações, elevando a pressão sobre a balança de bens. O artigo destacou que, apesar de um alívio pontual em maio, a tendência até então mantinha o défice em níveis elevados, com riscos para a competitividade e para os preços suportados pelas famílias e empresas.

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