Centeno aponta recuperação lenta da construção habitacional e critica políticas económicas dos U.S.
A escassez de oferta no mercado habitacional português continua a pressionar os preços num contexto de forte crescimento da procura. Mário Centeno defende que a reconstrução da capacidade do setor da construção exige tempo, numa economia ainda marcada pelo elevado endividamento.
Destaques
- Mário Centeno destaca que o valor global dos salários pagos no setor privado em Portugal duplicou de 32 mil milhões de euros em 2015 para cerca de 64 mil milhões em 2025.
- Centeno alerta que o setor da construção habitacional português enfrenta uma retoma lenta devido ao forte endividamento e aos mínimos registados em 2014-2015 no licenciamento.
- Centeno critica políticas económicas dos U.S., sublinhando que a despesa pública cresceu 6% entre outubro de 2022 e outubro de 2023, agravando riscos de declínio económico.
Construção habitacional enfrenta recuperação gradual
Como noticiou o Jornal de Negócios, Mário Centeno afirmou esta quarta-feira, numa conferência na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, que a crise da habitação em Portugal resulta de um desequilíbrio entre oferta insuficiente e procura elevada.O antigo governador do Banco de Portugal relaciona o aumento da procura com a subida dos salários, indicando que o valor global dos salários pagos no setor privado passou de 32 mil milhões de euros em 2015 para cerca de 64 mil milhões de euros em 2025. Ainda assim, ressalva que essa evolução não ocorre ao mesmo ritmo para todos os trabalhadores.
Centeno sustenta que esta pressão da procura encontra um setor da construção fragilizado pelo período do programa de ajustamento financeiro. Na sua leitura, 2014 e 2015 marcam anos de mínimos na construção e no licenciamento em Portugal, o que ajuda a explicar a lentidão da resposta atual da oferta.
O ex-ministro das Finanças acrescenta que a retoma é mais difícil num setor fortemente alavancado por dívida, num país também muito endividado. Por isso, considera necessária paciência para que a capacidade produtiva da construção habitacional se recomponha.
Críticas às políticas norte-americanas e apelo à integração europeia
Na mesma intervenção, Centeno comenta os resultados das eleições intercalares norte-americanas de terça-feira como um sinal de descontentamento dos eleitores com as políticas económicas da administração de Donald Trump. O antigo responsável afirma que várias medidas adotadas nos últimos dois anos nos U.S., incluindo em imigração, tarifas, gestão de serviços públicos e impostos, prejudicam o país.Entre os exemplos apontados, refere que a despesa pública norte-americana cresce 6% entre outubro deste ano e outubro do ano passado, apesar das medidas de contenção anunciadas. Para Centeno, os U.S. arriscam declínio económico se não alterarem o rumo das suas políticas.
O antigo governador defende também que Portugal deve posicionar-se entre os principais defensores do aprofundamento da integração europeia. Na sua perspetiva, num contexto globalizado, discursos contra a imigração são incompatíveis com o desenvolvimento económico e o fecho de fronteiras não oferece uma resposta viável para o crescimento do país.
Na nossa publicação anterior sobre a descida das taxas Euribor, explicámos como o recuo nas principais maturidades pode aliviar as prestações das famílias com crédito à habitação de taxa variável, sobretudo nos contratos indexados a seis meses. Também analisámos o enquadramento de política monetária do BCE e as regras mais apertadas do Banco de Portugal (como a redução do limite de taxa de esforço), que continuam a condicionar o acesso ao financiamento e a gestão do orçamento das famílias.
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