Pavlo Kot

De passagens aéreas a Ferraris: o que dá para comprar com cripto?

De passagens aéreas a Ferraris: o que dá para comprar com cripto?
Wall Street vê oportunidade de compra após tombo do mercado

​Hoje, é possível usar criptomoedas para pagar hotéis, passagens aéreas, eletrônicos, videogames e até carros. No entanto, muitas vezes os lojistas acabam recebendo dólares convencionais, sem sequer perceber a participação da criptomoeda no pagamento. Nessas circunstâncias, os ativos digitais podem realmente ser considerados dinheiro por si só?

Este artigo foi traduzido do original. Leia a versão original do nosso correspondente aqui.

De acordo com um estudo da National Cryptocurrency Association (NCA) e do PayPal, quatro em cada dez empresas dos EUA pesquisadas em diversas categorias de consumo já aceitam criptomoedas. A proporção é ainda maior entre as grandes empresas, e, em média, os pagamentos com cripto representam uma parcela significativa das vendas das empresas que os adotaram.

Motivos e nível de adoção de pagamentos com cripto pelas empresas. Fonte: NCA.

No entanto, a expressão "aceitar ativos digitais" hoje abrange modelos muito diferentes. Em alguns casos, os compradores transferem moedas diretamente aos lojistas. Em outros, os pagamentos são convertidos instantaneamente em moeda tradicional. E, quando são usados cartões cripto, as lojas podem nem saber que os clientes pagaram com ativos digitais.

O que é possível comprar com ativos digitais?

As viagens são uma das categorias mais expressivas. Por exemplo, a Travala permite que os clientes paguem com criptomoedas por mais de 2,2 milhões de opções de hospedagem, voos de centenas de companhias aéreas, aluguel de carros e atividades turísticas. Entre os ativos aceitos estão BTC, ETH, USDT, USDC, XRP, DOGE e dezenas de outras criptomoedas.

O processo é simples para os usuários: eles escolhem um hotel ou voo, selecionam a forma de pagamento e pagam a reserva com sua carteira cripto.

Essa categoria está bastante alinhada aos resultados da NCA e do PayPal. Entre as empresas pesquisadas, as dos setores de hotelaria e viagens tiveram a maior taxa de aceitação de criptomoedas, de aproximadamente 81%. O índice ficou em torno de 76% para bens digitais, videogames e produtos de luxo, e em cerca de 69% para varejo e comércio eletrônico.

As compras do dia a dia também estão gradualmente migrando para esse modelo.

Serviços como o BitPay permitem que os consumidores usem criptomoedas para pagar por alimentos, eletrônicos, roupas, artigos para casa, jogos, ingressos e outros serviços. Segundo a empresa, alimentos, restaurantes e bebidas foram a maior categoria de compras de cartões-presente com ativos digitais em 2025, representando quase 40% do total.

No entanto, é importante distinguir entre lojistas e intermediários. Se alguém usa BTC para comprar um cartão-presente de uma rede varejista, isso não significa necessariamente que a própria rede aceite Bitcoin. Para o cliente, o resultado é praticamente o mesmo: ele gastou criptomoedas em um produto. Mas o lojista recebe um pagamento convencional por meio de um sistema já existente.

Na outra ponta do mercado estão as compras de alto valor. A Ferrari, por exemplo, ampliou os pagamentos com criptomoedas em suas concessionárias nos EUA e na Europa. Os clientes podem comprar um veículo usando ativos digitais, mas as concessionárias não precisam necessariamente manter BTC ou ETH, já que o provedor de pagamentos converte os valores em moeda tradicional.

O que acontece na hora de pagar?

Para os compradores, pagar com cripto é simples: basta escolher uma criptomoeda, confirmar a transferência e receber o produto. Mas, cada vez mais, os lojistas não têm contato direto com ativos digitais.

A Shopify, por exemplo, permite que lojistas aceitem USDC pelo Shopify Payments. Os clientes pagam com a stablecoin, enquanto as lojas podem receber o próprio USDC ou moeda tradicional. Neste último caso, a conversão é automática, tornando a transação praticamente igual a um pagamento com cartão para a empresa.

O PayPal adota um modelo semelhante. Seu recurso Pay with Crypto permite que lojistas dos EUA aceitem dezenas de ativos digitais, enquanto o serviço cuida do processamento e da conversão dos pagamentos. Assim, os clientes gastam BTC, ETH, XRP, USDT ou outra criptomoeda, enquanto as empresas recebem dinheiro convencional.

Os cartões cripto levam esse modelo ainda mais longe. Os usuários podem manter fundos em ativos digitais e pagar em qualquer lugar que aceite Visa. Cafés e lojas veem uma transação comum com cartão e podem nem imaginar que, poucos segundos antes, os fundos estavam em criptomoedas.

Com isso, o significado de "pagar com criptomoedas" se tornou muito mais amplo do que era há alguns anos. Para os clientes, o que importa é de onde vêm os fundos. Para os lojistas, o importante é receber o pagamento de uma forma conveniente.

Esse modelo está eliminando gradualmente uma das principais barreiras para as empresas.

As lojas já não precisam necessariamente entender de carteiras cripto, manter ativos voláteis ou reformular seus sistemas contábeis. Elas simplesmente passam a contar com mais uma opção de pagamento, sem mudar a forma habitual de lidar com dinheiro.

Stablecoins ganham espaço

Nesse contexto, o papel das stablecoins está mudando com particular rapidez. Para pagamentos do dia a dia, USDT e USDC são mais convenientes que Bitcoin ou Ethereum por um motivo simples: espera-se que seu valor não oscile de 5–10% entre a compra e o pagamento da fatura.

Segundo a Allium, o volume de pagamentos com stablecoins chegou a aproximadamente US$ 482 bilhões nos primeiros nove meses de 2026, alta de cerca de 45% desde o início do ano. No entanto, a maior parte desse dinheiro não passa pelos caixas do varejo.

As principais categorias incluem pagamentos entre empresas, serviços, folha de pagamento e pagamentos a fornecedores. As compras dos consumidores representam uma parcela bem menor, de aproximadamente US$ 19 bilhões.

Em outras palavras, a principal história dos pagamentos com stablecoins hoje não é sobre café ou roupas. É sobre movimentar dinheiro com rapidez e baixo custo entre países e empresas.

As redes de cartões não estão ficando de fora. A Visa já oferece suporte a mais de 160 programas de cartões vinculados a stablecoins, e o volume de transações desses programas quase triplicou no último ano. Em vez de competir diretamente com os sistemas de pagamento tradicionais, os ativos digitais estão sendo cada vez mais integrados à infraestrutura existente.

As criptomoedas já podem ser usadas para pagar por quase todas as categorias de consumo conhecidas, de viagens e alimentos a eletrônicos e carros. Mas a adoção em larga escala não está acontecendo porque os lojistas estão abandonando dólares, euros e cartões bancários. Em vez disso, ela avança por meio da integração dos ativos digitais à infraestrutura de pagamentos já estabelecida.

Isso significa que os criptoativos estão, na prática, se tornando dinheiro para os usuários, mesmo quando os lojistas não os veem. Para os clientes, a diferença está cada vez mais na origem dos fundos usados no pagamento; para os lojistas, na moeda que recebem.

Por isso, esses pagamentos se parecem cada vez mais com compras comuns do dia a dia.

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