Portugal viabiliza reforma da PSU para desbloquear fundos do PRR
Portugal avança com a Prestação Social Única, uma reforma que agrega 13 prestações não contributivas num único apoio e que é decisiva para libertar cerca de 600 milhões de euros do PRR. O acordo entre PS e PSD mantém, no entanto, incerteza sobre a eventual obrigatoriedade de atividades de inserção social para os beneficiários.
Destaques
- O Parlamento português avança com acordo PS-PSD para reforma da PSU, garantindo tranche de financiamento do PRR e votação final até junho.
- O limite patrimonial em imóveis aumenta de 30 para 60 IAS (aprox. 16 mil euros), ampliando acesso a famílias de baixos rendimentos com pequenas propriedades.
- A transição automática para a PSU preserva benefícios atuais, novas candidaturas online começam no terceiro trimestre de 2026 e controlo antifraude é reforçado sem canal de denúncia.
Acordo político altera regras de acesso
A notícia foi avançada pelo ThePortugalPost, segundo o qual o Parlamento português abre caminho para a aprovação da PSU após semanas de negociação entre PS e PSD. O entendimento permite preservar uma tranche de financiamento europeu associada ao PRR, com votação final esperada até ao fim de junho.Entre as mudanças acordadas, o limite patrimonial em imóveis sobe de 30 para 60 IAS, cerca de 16 mil euros, alargando o acesso a famílias com poucos rendimentos mas com pequena propriedade. O texto também prevê que nenhum beneficiário atual receba menos com a PSU do que recebia no regime anterior.
O compromisso elimina ainda o canal de denúncia de fraude inicialmente previsto pelo Governo, embora mantenha controlos antifraude reforçados. Pensionistas abrangidos pelo Complemento Solidário para Idosos ficam sujeitos a uma revisão no prazo de 90 dias, enquanto pessoas com incapacidade certificada e cuidadores informais registados ficam isentos de obrigações de trabalho ou atividade.
No acesso por estrangeiros, o acordo preserva a exigência atual de um ano de residência legal, rejeitando propostas para endurecer esse critério. Para quem já recebe RSI, subsídio social de desemprego ou pensão social de velhice, a transição para a PSU deverá ser automática, sem interrupção de pagamentos, e novas candidaturas online deverão arrancar no terceiro trimestre de 2026.
Impacto social e risco de disputa regulatória
A principal divergência política mantém-se na interpretação da chamada atividade de solidariedade social. O PS sustenta que a obrigação geral de 15 horas semanais deixa de existir como regra automática e passa a integrar planos individualizados de inserção, enquanto o PSD afirma que a exigência continua obrigatória, apenas enquadrada de forma personalizada.Essa ambiguidade remete o centro da decisão para o futuro decreto-lei, que definirá se a participação em atividades comunitárias terá sanções formais ou caráter mais recomendatório. O desenho final poderá influenciar a aplicação pelos serviços e abrir espaço a contestações jurídicas.
A reforma também levanta reservas entre organizações sociais. A Plataforma Portuguesa para os Direitos das Mulheres alerta que os critérios de rendimentos do agregado e de património podem penalizar mulheres em situações de violência doméstica ou com cargas intensas de cuidado não remunerado, uma vez que o novo sistema continua a assentar na avaliação do agregado familiar.
No plano político, o entendimento entre PS e PSD isola o Chega nesta matéria e reduz o risco de perda de fundos europeus. Para o setor social, a PSU aproxima Portugal de outros modelos europeus de rendimento mínimo mais simplificados, mas a eficácia no combate à pobreza dependerá da regulamentação e da execução operacional.
Na nossa publicação anterior sobre as condições do PS para viabilizar a Prestação Social Única (PSU), explicámos que o partido admitia aprovar a medida apenas com alterações ao diploma, para evitar critérios considerados gravosos e salvaguardar os beneficiários mais vulneráveis. Também destacámos que a proposta baixou à especialidade e que o debate sobre os critérios de acesso — incluindo o tempo mínimo de residência legal para estrangeiros — se tornou um dos pontos mais sensíveis da negociação parlamentar.
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