Rede elétrica de Portugal regista pico de verão e aumenta pressão sobre o sistema
A onda de calor do início de julho está a levar o consumo elétrico em Portugal para níveis inéditos no verão, aproximando os picos sazonais dos registados no inverno. O aumento do uso de ar condicionado e sistemas de arrefecimento eleva o risco de falhas localizadas em zonas com equipamentos de distribuição mais antigos ou sujeitos a sobrecarga.
Destaques
- O consumo instantâneo de eletricidade em Portugal atinge pico recorde de 8.493 MW em 2 de julho, impulsionado por temperaturas superiores a 40ºC.
- No primeiro semestre de 2026, o consumo elétrico sobe 3,5% para 27.200 GWh, com renováveis a garantirem 71% da procura, lideradas pela hídrica, e solar a atingir 3.800 MW em 29 de junho.
- As autoridades alertam para maior risco de cortes localizados e custos elevados em horas de ponta, com o governo a acelerar investimentos em monitorização, armazenamento e interligação elétrica com Espanha.
Consumo recorde e resposta imediata da rede
Segundo o The Portugal Post, a Redes Energéticas Nacionais, REN, confirma que a primeira semana de julho estabelece novos máximos de consumo elétrico nos meses quentes. Em 2 de julho, a procura instantânea atinge 8.493 MW às 20h00, acima dos 7.918 MW registados em 30 de junho de 2025, e em 3 de julho o consumo diário sobe para 171,1 GWh, superando o anterior recorde de verão de 163,4 GWh fixado em 13 de julho de 2022.A subida é associada ao uso intensivo de ar condicionado durante temperaturas superiores a 40 graus Celsius em várias regiões. No primeiro semestre de 2026, o consumo total de eletricidade chega a 27.200 GWh, mais 3,5% do que no mesmo período de 2025 e o valor mais elevado de sempre para essa metade do ano.
Nuno Amaro, professor do Departamento de Engenharia Eletrotécnica e de Computadores da NOVA FCT, afirma que um apagão nacional continua improvável, mas considera bastante provável a ocorrência de cortes localizados em bairros ou zonas de distribuição específicas. Transformadores e linhas aéreas perdem eficiência sob calor extremo, o que aumenta o risco de avarias quando a carga se mantém elevada por longos períodos.
Renováveis, investimento e impacto para consumidores
O Ministério do Ambiente e da Energia apela à contenção no consumo de eletricidade e água, com a ministra Maria da Graça Carvalho a reconhecer que o uso intensivo de ar condicionado pode sobrecarregar segmentos locais da rede. A pressão surge num momento em que os picos de procura no verão e no inverno ficam cada vez mais próximos, reduzindo a margem disponível para responder a subidas inesperadas da carga ou a falhas de equipamento.Apesar da pressão sobre a infraestrutura, as renováveis asseguram 71% do consumo total no primeiro semestre de 2026, com a hídrica a liderar, seguida da eólica e da solar fotovoltaica. A produção solar atinge um novo máximo de cerca de 3.800 MW em 29 de junho, reforçando o papel desta tecnologia nas tardes de maior consumo e reduzindo a necessidade de recurso a geração fóssil de reserva.
O governo está a acelerar a modernização da rede com ferramentas digitais de monitorização, novos mecanismos de flexibilidade e reforço da capacidade de armazenamento. Entre as medidas em curso estão um mecanismo de capacidade tecnologicamente neutro, a expansão das baterias para cerca de 2 GW até 2030, novas regras de ligação flexível decididas pela ERSE e o reforço da interligação elétrica com Espanha.
Para os consumidores, o impacto mais imediato é a maior probabilidade de interrupções localizadas em áreas densamente povoadas ou com equipamento envelhecido, além de potenciais aumentos de custos nas horas de ponta. A necessidade de reduzir consumo entre as 18h00 e as 22h00 ganha peso num sistema que enfrenta uma mudança estrutural, com a procura de verão a aproximar-se rapidamente dos níveis historicamente reservados ao inverno.
Na nossa publicação anterior sobre o reforço das interligações elétricas da Península Ibérica, explicámos como Portugal tem defendido em Bruxelas mais financiamento e aceleração de obras para reduzir o “isolamento elétrico” face a França. Detalhámos que uma maior capacidade de ligação e mais armazenamento podem baixar a volatilidade dos preços, melhorar a segurança do abastecimento e permitir aproveitar melhor os excedentes de renováveis.
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