Anthropic enfrenta ação coletiva em Portugal por alegada falha no livro de reclamações

Anthropic enfrenta ação coletiva em Portugal por alegada falha no livro de reclamações
Anthropic sob ação coletiva

Um tribunal de Lisboa recebe em 7 de julho de 2026 uma ação coletiva contra a Anthropic, num teste à aplicação das regras portuguesas de defesa do consumidor a plataformas internacionais de inteligência artificial. O processo sustenta que a empresa cobra utilizadores e clientes empresariais em Portugal sem disponibilizar o canal de reclamação legalmente exigido, o que pode abrir um precedente para outras tecnológicas do setor.

Destaques

  • Citizens' Voice abriu ação coletiva contra a Anthropic no Tribunal Judicial de Lisboa, exigindo implementação do Livro de Reclamações Eletrónico e sanções diárias mínimas de 20.000 euros por incumprimento.
  • A petição pede compensação retroativa de pelo menos 500 euros por dia para cada consumidor afetado desde a notificação formal, tendo o processo o valor inicial de 60.000 euros.
  • O caso pode pressionar plataformas internacionais como OpenAI, Google e Meta a cumprir a lei portuguesa de canais de reclamação online, impactando freelancers e startups em Portugal.

Ação judicial testa cumprimento das regras portuguesas

The Portugal Post noticia que a ação foi apresentada pela associação Citizens' Voice no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa, com o argumento de que a Anthropic opera serviços no mercado português, recebe pagamentos de utilizadores locais e não oferece acesso ao Livro de Reclamações Eletrónico.

O caso nasce de uma queixa de faturação relacionada com a API da Claude. Um utilizador português diz ter detetado no fim do mês uma cobrança inesperada do plano Claude Plus, apesar de não ter pedido essa subscrição, e afirma que encontrou apenas um sistema de apoio com fila automatizada por IA, sem canal formal de reclamação sujeito à supervisão regulatória portuguesa.

Octávio Viana, presidente da Citizens' Voice, afirma que o cliente ficou remetido para uma "caixa negra" sem via legal de escalamento. A associação pede ao tribunal que ordene à Anthropic a implementação do mecanismo eletrónico de reclamações exigido em Portugal e que fixe sanções diárias em caso de incumprimento.

Segundo o texto, a legislação portuguesa em vigor desde 2005 obriga fornecedores e prestadores de serviços a manterem um mecanismo de reclamação para consumidores. O sistema foi digitalizado em 2017 através da plataforma www.livroreclamacoes.pt e, desde julho de 2018, abrange empresas que servem clientes portugueses online, mesmo sem presença física no país.

Quando uma reclamação é apresentada por essa via oficial, a notificação segue para a empresa, para o regulador setorial competente e para a base de dados do Estado, com prazo de resposta de 15 dias úteis. A Citizens' Voice defende que essa obrigação também se aplica à Anthropic, independentemente de a empresa ser dos U.S. e operar apenas online.

Impacto potencial para tecnológicas e utilizadores em Portugal

A petição procura duas medidas com efeito financeiro direto. A primeira é uma ordem judicial para ativar o livro de reclamações eletrónico para residentes e empresas portuguesas, com multa diária mínima de 20.000 euros se a Anthropic não cumprir o prazo fixado pelo tribunal.

A segunda é uma compensação retroativa mínima de 500 euros por dia para cada consumidor afetado, contada desde a data em que a empresa for formalmente notificada até à entrada em conformidade. No portal judicial Citius, o processo surge com o valor de 60.000 euros, descrito como um montante padrão inicial para ações coletivas em que o universo de lesados ainda não está determinado.

O litígio também pode aumentar a pressão sobre outras plataformas internacionais de IA com clientes em Portugal, incluindo OpenAI, Google e Meta, referidas no texto por não destacarem de forma visível o acesso ao mecanismo oficial de reclamações português. Para utilizadores nacionais, especialmente freelancers, startups e profissionais remotos que dependem destas ferramentas, a ausência de um canal formal significa menor transparência em disputas de faturação, serviço ou dados.

Fundada em 2021, a Anthropic comercializa os modelos Claude para consumidores, programadores e organizações. A empresa não respondeu aos pedidos de comentário até ao fecho referido no texto, enquanto a Citizens' Voice, associação criada em 2021, diz já ter apresentado mais de 100 ações de interesse público e considera que este processo pode redefinir a forma como plataformas tecnológicas estrangeiras cumprem a lei do consumo em território português.

Na nossa publicação anterior, analisámos o alerta de cibersegurança na China que classificou o Claude Code, da Anthropic, como potencial ameaça devido a um mecanismo de telemetria e aos riscos de fluxos transfronteiriços de dados e metadados. Explicámos como este tipo de episódios aumenta a pressão sobre equipas e empresas em Portugal para reverem governação de IA, conformidade com regras de dados e a exposição a regimes regulatórios divergentes entre a UE, a China e os EUA.

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